Texts about Trans-Amazônia

Rodovia Transamazônica (BR-230) - Transamazon Highway - Kombi de Sabá / Sabá's Van - Foto / Photo: Tiago Gambogi

Rodovia Transamazônica (BR-230) – Transamazon Highway – Kombi de Sabá / Sabá’s Van – Foto / Photo: Tiago Gambogi

Rodovia Transamazônica (BR-230) - Transamazon Highway - Kombi de Sabá / Sabá's Van - Foto / Photo: Tiago Gambogi

Rodovia Transamazônica (BR-230) – Transamazon Highway – Kombi de Sabá / Sabá’s Van – Foto / Photo: Tiago Gambogi

Textos sobre Trans-Amazônia
por José Alfredo Debortoli, Ailtom Gobira – gobiragobs, Luiz Carlos Garrocho, Dudude, Margaret Swallow e Tiago Gambogi

“Uma peça sobre o amor!”
Por José Alfredo Debortoli

O espetáculo Trans-Amazônia compartilha uma narrativa de viagem em que se revelam histórias de emoções e relações. Uma Estrada…uma riqueza de caminhos e processos. Pessoas, cidades, animais, objetos…um campo de possibilidades. Experiências, saberes, inter-ações …registros de encontros que se expressam como dança.

Uma narrativa (en)carnada, Trans-Amazônia nos desafia um entendimento que requer atenção e percepção, igualmente, aos movimentos, às relações, ao ambiente e aos signos. As palavras, as imagens, os objetos são importantes e necessários; mas não se sobrepõem ao corpo, à música, ao silêncio, ao grito, à gestualidade, na produção dos sentidos que propõe relacionar.

Dança…movimentos…gestos…palavras…produção de sentidos… Trans-Amazônia faz emergir contextos que (se) tecem cotidianamente (em) cada gesto, (em) cada ação de tocar/apalpar/acarinhar uma vida que se faz prenha de corporalidade, de expressividade.

Como experiência estética, não se enuncia agradável, doce ou bonita …de expressar, de olhar, de compartilhar, de viver. Muitas vezes é dura, amarga, desconfortável, orgânica … visceral. Partilhas que nos provocam indignação, raiva …revira-nos e atinge-nos as entranhas. Em alguns momentos nos faz calar. Entristece-nos.

Mas não se revela árida. Desperta-nos, invariavelmente, generosa e nos fertiliza o desejo de prosseguir. Uma narrativa nua, crua; indignada …e, também, delicada.  Em meio à dureza e ao embrutecimento, uma história prenha de esperança …de partilha envolvimentos como uma aposta na vida…de dançar como uma resposta à vida.

Nessa jornada, a “Estrada Transamazônica”, como processo e caminho, começa aqui, ali; revela-se em todo lugar. Nasce na vida de cada um de nós, nasce da rica corporalidade de Tiago Gambogi, explodindo de forma vigorosa em dança, em movimentos, em corporalidade, transformando-nos, com ele …Somos humanos, somos bichos … somos presença em uma paisagem dinâmica que, também, nos produz.

Como espectador reconheço-me parte deste tempo-espaço relacional. A dança me vincula, me provoca fluir junto. Sinto-me par, parceiro. Preciso acolher, abraçar, colocar no colo, acarinhar, alinhar-me, aliar-me …preciso fazer alguma coisa. Faço parte daquele fluxo de movimentos, de envolvimentos e de relações.

Produzo-me, junto, nos sentidos dos gestos que dançam em uma jornada que também é minha. Participo de sua viagem, experimento-me encarnado em uma história onde a dança, atravessando meu corpo, me faz querer ser …me faz querer ser humano…querer ser vivo…querer ser vivo … deixar-me afetar …aprender… transformar-me… convida-me a dançar.

Nessa jornada-narrativa, o cenário/paisagem é preciso. Pequenos objetos que se impõem como fato, como imagem, como relação, como indignação, como esperança. Nunca como menosprezo. Em cada elemento, gera-se movimentos, produz-se gestos, constrói-se dança.

Uma obra de ficção? Personagens inventados? Revelam-se pessoas e acontecimentos reais. Somos e estamos todos ali. Não são/somos personagens. São/somos entrelaçamentos. Cada ser …uma escolha da emoção…da raiva…do desejo… de tudo aquilo que se impôs necessário revelar, expressar, gritar, silenciar, sentir, compartilhar…ir além.

O caminhoneiro, a professora, a prostituta…cada um, a seu modo, lutando por sua dignidade … cada um, em sua jornada, transcendendo à loucura e ao desprezo de ser tratado como lixo. Como é possível, envolvidos por tanta vida, sermos tratados como lixo, sentirmo-nos lixo, sermos tomados pelo lixo? É preciso revirar o lixo, (re)encontrar a vida e a morte no lixo. Não é bonito de se ver! Não poderia ser!

A dança e a gestualidade, como técnica, não caem na armadilha dos excessos, dos exageros performáticos. Os movimentos não são produzidos para dar espetáculo. São respostas necessárias, que emergem do envolvimento com os objetos, com o cenário, com o espaço, com os sentimentos, fluindo movimentos …fluindo sentidos.

Assim, Tiago vai tecendo e nos revelando seu envolvimento nas texturas da Rodovia Transamazônica, onde percorreu mais de quatro mil quilômetros, atravessando em torno de trinta localidades, durante cinco meses, dançando, produzindo imagens fílmicas e fotográficas, envolvendo-se com as pessoas e (em) seus ambientes, realizando performances e oficinas, produzindo(-se) registros de práticas, experiências e relações.

Como espetáculo, tem um sentido político delicado e potente, constituindo inter-ações que nos afetam mutuamente, reclamando cuidado, constituindo-nos éticos-estéticos. Nesse contexto, seus gestos, sua corporalidade, sua dança impõem visibilidade a seres humanos e não humanos menosprezados na socialidade histórica de nosso imenso Brasil: barrageiros, seringueiros, caminhoneiros, prostitutas, operários, indígenas entrelaçam histórias de riquezas e misérias; exploração e generosidade; destruição e esperanças.

PERIGOS NA ESTRADA, PERIGOS NA FLORESTA  Ou a saga de um Tiago na Transamazônica 

quem dera  o rei poderoso

soubesse das quaresmeiras ao entardecer

e das árvores que assobiam com o vento

Este rei que não sou eu e está em toda parte.

Sim ele decidiu um corte profundo

Uma cirurgia estética?

Para melhorar a saúde?

Para irrigar melhor as veias da nação?

Um rei onipotente que se julga além-natureza

Quem ovacionou aquilo que veio da floresta?

alguém gritou:

Alto lá… o rei está nu.

Caras de espanto, sorrisos amarelos, violas empoeiradas, carros amassados, urubus voando no telhado.

Todos em estado de alerta.

E até uma arara meio despenada veio conferir.

Um repentista de lá mandou uns versos quadrados, desacorçoados, destrambelhados e fora de propósito

 otário

pensas que o dia cai em suas conversas?

que a tarde é curta?

que a noite criança?

se os dias nu

os dias fui

não dá pra querer manhã

E disse o rei:

– Para quem saiu da Paraíba….

A floresta derrubada é lucro….

“Muita saúva e pouca saúde os males do brasil são”.

… insistiu citando um trecho incerto de um livro incerto, de um escritor incerto, de um país incerto……..

Então a vida assim

…………………

Uma estrada

Uma floresta

Um homem

……………..

Caminhos tateados

Burro, pedra, pé, chão

Rodas de caminhão e alguém que insiste em dançar

a tragédia e a comédia

comédia?

Noves fora

sobrou uma menina e sua família

Onça não

Quem sabe de hora-mundos?

Viola em saco de couro de boi?

Partir é de manhã

Mas à tarde também se vai

Só sabe de pousos passarinho que viaja

Texto de ailtom gobira – gobiragobs – Novembro de 2013

Recorrências
Por Luiz Carlos Garrocho

Tiago tomou para si a tarefa de repassar a trajetória marcada pelo programa de integração nacional do regime militar: a rodovia Transamazônica. Já havia se tocado pelo vasto território que denominamos Amazônia brasileira. Decidiu que seu próximo trabalho seria resultante do que encontrasse pelo caminho.

Fiquei curioso: como ele juntaria as suas pesquisas mais recentes sobre o universo do clown, misturados ao Teatro Físico e à Dança? Sim, com as vivências baseadas em Londres, ao lado da companheira e artista, também coreógrafa Margaret Swallow, como seria isso, essa volta ao Brasil?

Então ele me convidou para participar dessa aventura, o que para mim é uma grande honra. Tiago tem sido um interlocutor perene, apesar dos grandes intervalos de tempo em que não nos encontramos, seja para conversar sobre teatro, sobre os rumos do teatro físico e da dança, seja sobre a poesia precária de nosso dia-a-dia.

Passei a acompanhar o blog em que ele publicava periodicamente textos e imagens sobre a travessia. E fui descobrindo, a cada momento, facetas desse país. Não ao modo de uma possível (e furada) ideia de identidade nacional. Mas das sensibilidades que o olhar de Tiago trazia, numa curiosidade quase infinita, sobre os modos de vida. Ele fez uma antropologia, essa viagem ao outro para inventar a si mesmo e, então, ver o outro. Algumas performances, encontros com a natureza do local, com as pessoas, com as pequenas cidades.

Foi se desenhando nesse encontro, pelo que pude ver, uma revolta imensa contra a destruição do meio-ambiente, patrocinada e produzida por grandes empresas, sem falar no genocídio e desastre que é Belo Monte.

Dito assim, parece que iria sair um panfleto. Teve a ação em que ele, solidário com a população local, arrasta uma canoa pelo asfalto e se soma aos protestos contra a Usina. E eu lhe perguntava: qual o cerne da revolta do poeta-clown? Ele diz que é o coração.

A pesquisa não terminou. Fizemos deambulações na cidade, ao encontro do que viesse, ao encontro do que tocava, à margem dos sentidos e da razão, a sensibilidade de poeta-perguntador.

E começou o processamento das sensações, lembranças, registros visuais e textuais. Tiago é um criador solitário, porém, como todo criador, povoado. Foi definido que eu o visitasse em intervalos. O mesmo fazia com Dudude. Ele precisa ir, sozinho, ao encontro dos seus fantasmas. E trazer, a cada vez, um achado, uma pedra que brilha. Nas visitas que fui fazendo, percebia que ele trabalhava entre composições disjuntivas – coisas sem nexo que, juntas, proporcionavam outros nexos. Por aproximação, por angústia, por desejo de poesia corpórea.

A revolta, o clown, o pitoresco, o humano, o local, a travessia, está tudo aí. E não está. Pois não é que isso seja a ilustração, ou a recordação do que foi vivido. E sim um modo de viver o que acontece aqui e agora, porque nele também algo está vindo e, com certeza, indo embora.

Aí está a nova travessia, que se faz diante e junto ao público.

Sobre processo do trabalho Trans-Amazônia
Por Dudude

Conheço Tiago há muitos anos e acompanho sua trajetória, seu empenho para com o trabalho em arte.

Ver um artista inquieto e dedicado é realmente muito gratificante.

Tiago se colocou de corpo inteiro para viver intensamente o processo deste trabalho, deixou em seu corpo marcas, histórias durante sua peregrinação na estrada transamazônica, filmou, gravou, encontrou, dançou, viveu realidades dispares neste Brasil, desconhecido por muitos de nós brasileiros.

Acompanhei Tiago, dando um suporte subjetivo, fomentando sua coragem, seu atrevimento de se lançar no desconhecido.

Depois de sua experiência vivida, Tiago foi para a sala de ensaios, era muito assunto, muita vontade de comunicar, de dançar seu assombro, seu espanto, sua revolta de ver e sentir um Brasil abandonado, maltratado e ao mesmo tempo rico e esperançoso.

Acompanhá-lo neste processo de descobrimento e feitura foi compensador, dedicado, interessado em fazer o mais próximo tudo que viveu.

Agora é o momento de se ter com o público, o momento justo do nascimento, de mostrar a que veio.

De minha parte digo vá em frente, Trans-Amazônia toca, comove e nos traz questões de humanidade, nos traz preocupações, nos alerta, nos incomoda.

Tiago Gambogi um criador, um bailarino, um ator, um artista.

Vida Longa a este Trans-Amazônia no desejo de comunicar com você, publico indispensável para todos os artistas da cena viva.


Estranha estrada estrangeira
Por Margaret Swallow

Amazônia…selvagem…misteriosa…perigosa…vou morrer aqui! Ah…está tudo bem na verdade! Respire! Eles dirigem assim o tempo todo…vou MORRER aqui…poeira, sujeira, plástico plástico plástico por todos os lados – isso sim será a nossa morte! Olha, um urubu. O pássaro essencial. Sempre por perto.

Em um pequeno barco de uma família em direção a Alter do Chão, no Pará. O pai navega, a mãe cozinha, o filho verifica o motor. Vinte minutos de viagem e o barco fica encalhado na areia da ‘praia de rio’, tentando manobrar ao redor de um barco madeireiro. Depois de muito esforço braçal e o vai-e-volta do motor, nós estamos livres para partir. O filho, descalço, short vermelho e sem camisa, espera no convés do barco, segurando em um pedaço de corda que está presa no outro barco. Espera sorrindo até que a corda é esticada, ele é puxado com força e, sorrindo muito, é arrastado na água escura. Transforma-se em golfinho – ágil mergulha profundamente e depois sobe até a superfície. Devagar puxa seu corpo em direção ao barco. Sobe. Sorrindo. Dando risadas. Liberdade. Totalmente em harmonia com o ambiente…feliz! Revivo esse momento em minha cabeça de tempos em tempos. Queria a alegria e liberdade daquele rapaz, naquele momento.

Meu passarinho ‘Meep’, uma rolinha filhote que bateu na janela do nosso quarto no hotel. Seus pais não voltaram para reavê-lo. Todo dia, suor no rosto, levava quatro horas para alimentá-lo com pequenas sementes…desculpe por minha incompetência! Depois do quarto dia ele começou a se alimentar– que alívio! Pequeno e confiante, mas ousado, mostrando sua desaprovação com pequenas batidas de asas no chão. Amoroso – voando em direção a mim à noite, recusando-se em ficar em qualquer outro lugar que não fosse minha mão ou ombro. Levei-o pra todo lado, viajando em barcos, carros e táxis. Como poderia deixá-lo? Era tão pequeno, tão vulnerável.

Mágica na selva com nosso amigo indígena ‘Bata’…uma multidão de borboletas amarelo limão bem à nossa frente…elas voam, uma nuvem de cor, quando chegamos perto.

Meus cachorros…eu voltarei para levá-los todos! Um com três pernas – o carro passou por cima dele, pois dormia ali debaixo. Sempre em pares ou bando, cuidando um do outro. Meu pequeno cachorro em Lábrea (no Amazonas) – querido lindo saco de pulgas! Com muito amor. Tiago dançou na praça à noite e o cachorro dançou com ele também. A multidão conversa e fica surpresa. Tiago…homem boto, todo de branco, dançando, saindo do rio e pra dentro da fonte luminosa!

Choque e uma raiva impotente em Altamira (Pará) – como é que as pessoas podem fazer isso com sua própria terra? Com seus próprios habitantes? Corrupção desde as ruas poeirentas até lá no Congresso em Brasília. Carros de polícia com a logomarca da empresa privada. Eu…completamente chocada. Horrorizada. Triste.

Surpreendida pela bravura de Tiago em sua performance com a canoa. De repente aparece esta arte – política – e como é importante. Tiago, você é o homem mais corajoso que conheço.

Eu vi belos jovens indígenas caminhando pela pequena cidade de Jacareacanga (Pará) usando havaianas e bermudas, carregando armas, arcos e flechas. Olhei pra eles fixamente. Eles olharam de volta, com seu olhar impenetrável. Sorri. Eles não sorriram de volta.

Foi um grande privilégio Tiago ter me convidado para viajar com ele na última etapa da viagem e estou feliz e orgulhosa com o que ele fez e alcançou. Esta não foi uma viagem ‘fácil’ ou ‘confortável’. Difícil para o corpo, as emoções e os ossos! Difícil também ver como as coisas realmente são, e não a versão higienizada que é vendida no exterior. Esta não foi uma viagem a algum eco-resort onde tudo é perfeito e podemos dizer: “Ah, a Amazônia está bem, não precisamos nos preocupar. ”Não está. E precisamos nos preocupar.

Difícil para mim também ficar tão longe de você, meu amor, quando sempre fiz parte dos processo artístico. E também fui parte, mas de uma maneira diferente dessa vez. E foi um processo riquíssimo pra você! De muitas maneiras diferentes. Esse é seu espetáculo: viagem, show, loucura, seu jeito único e inacreditável…!

Eu nunca tinha sentido algo tão forte há tanto tempo. Vivemos um dia após o outro, temos nossa rotina, trabalhos, nossas vidas. Mas raramente nos sentimos desafiados dia-a-dia. Nessa viagem eu era constantemente desafiada. O Brasil não é para amadores. Todo dia tinha que encarar algum medo, medo do que podia estar nos rios, medo da maneira como os motoristas dirigem por lá – realmente perigoso. Medo da polícia, de oficiais corruptos…existia muito medo. Mas é bom – faz com que os outros momentos se tornem mais preciosos.

Tive que encarar viajar no calor forte e com muita umidade, algo a que não estou acostumada, falar uma língua que não é minha língua materna, viajar para lugares aos quais não iria se estivesse sozinha. Não que eu seja medrosa! Não sou! Mas todo esse espírito improvisado do Brasil, em lugares ermos como um faroeste…a sensação de terra sem lei, o desconhecido, de que qualquer coisa poderia acontecer, a liberdade – isso era amedrontador. Eu estava presa na minha própria vida segura. No Brasil acredito que ainda seja possível ser verdadeiramente livre. Não deixe isso ir embora, Brasil, não se deixe sucumbir à ilusão da vida dos países ditos ‘desenvolvidos’. Não deixe que os grandes consórcios e empresas o governem. Você perderá o que tem e, uma vez perdido, nunca mais terá de volta. Aconteceu no meu país e estamos pobres por isso.

Ainda, em meio a todas as dificuldades, encontrei pessoas que foram muito gentis, dispostas a compartilhar, extremamente generosas. Encontrei beleza surpreendente, quietude, barulho e alegria.

Sim, eu disse que voltaria, eu disse eu voltarei sim, sim, sim…


Trans-Amazônia – Uma estrada. Uma floresta. Um homem. Muitos encontros.
Por Tiago Gambogi

Trans-Amazônia sou eu, você e seu vizinho. Seu cachorro poodle de roupinha rosa e a onça pintada que foi morta pela Força Nacional em Altamira a pedido da Dilma pra incriminar os indígenas. É a ação mineradora no Estado do Pará, no Estado de Minas Gerais e toda sua ‘lavagem verde’ que vem subsidiar a cultura nacional. É fazer amor sem camisinha na África…ou Nova Iorque! É a estrada que te corta ao meio…sem você querer! É o progresso em forma de alumínio que vem embalado em plástico. É beber refrigerante, usar smartphone e não ter saneamento básico. Pet, Rob & Ass e o pré-sal! É a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Belo Monstro! Ou a floresta que vira móvel chique e é transformada em pasto para gado nelore…e depois nos presenteia com o delicioso churrasquinho de fim de semana pra comemorar a vitória do Brasil na copa…ou c*zinha(o)?

Partindo da cidade de Cabedelo (na Paraíba) percorri todo trajeto da Rodovia Transamazônica (BR-230), finalizando em Lábrea, no Amazonas (com alguns desvios, percalços e muitos atoleiros!). Então…que Brasil é esse 40 anos depois da inauguração do grande projeto desenvolvimentista de conquista do Norte e Nordeste? Qual é o corpo que surge e como ele reage nas regiões de conflito? A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, Carajás e as atividades da mineradora VALE?

O espetáculo celebra a proposta do artista/pesquisador/criador/intérprete que, imerso em uma pesquisa de campo, interage com comunidades locais por meio de ações performáticas, oficinas/cursos, entrevistas, diário escrito/fotos/vídeos. A partir dessa experiência, emerge o espetáculo. O artista está sempre ‘em obra’, onde vida-experiência-criação se misturam.

Trans-Amazônia é animal artístico mutante e transita entre a representação teatral (criação de personagens com caracterização física desenhada, com estórias e conflitos dramáticos) e a não-representação (foco no tempo real, com a utilização de experiências pessoais do performer, ações performáticas, abstrações do corpo e o não-conflito). Busca porto nas zonas de desconforto, no deboche, na trans-gressão, no que não é permitido, no tabu ou escondido, interessado em um estado de híper-presença do performer. O corpo do performer é atravessado por movimento, texto, canto, figurino, sonoridades, vídeos – TRANS-FORMANDO-SE a cada momento, digerindo as experiências e encontros da viagem.

Corporificando um palhaço macabro, todo de branco e ensanguentado, realizei uma performance-protesto em frente à empresa Norte Energia, responsável pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará. Puxando uma canoa pelo asfalto e subindo as escadas da empresa, abordei os seguranças e disse “Eu sou pescador. Acabei de mudar para a região e não fui convidado para esta reunião!”. Com o apoio da massa de pescadores, indígenas e representantes dos movimentos sociais contra a construção de Belo Monte, empurramos a canoa e abrimos as portas em direção à reunião sobre as consequências e impactos ambientais referentes à construção da usina.

Trans-Amazônia traz as polaridades e o duplo para o corpo: homem/mulher, progresso/destruição, conflito/harmonia, natureza/urbano, norte-nordeste/sul-sudeste, branco/índio-negro-mestiço, horizontal/vertical, representação/não-representação, quente/frio, Brasil/exterior, arara/urubu, popular/erudito. Repleto destas polaridades e contradições, o espetáculo não traz soluções, mas perguntas que se trans-formam e trans-formam o corpo do performer num ritual-espetáculo-pop show.

A verticalidade e o contraste entre a natureza e o urbano têm como metáfora os postes de pole dance no espetáculo: bicho, pássaro, macaco, onça, homem/mulher, erótico/acrobático, criança que sobe, dança e voa no poste. O poste é árvore em inox, poste de energia elétrica e telecomunicação.

O urubu, a nova ave símbolo da Amazônia e do Brasil. Esse garçom em negra plumagem que penetra a festa da multinacional, digere, trans-forma e recicla o LIXO que produzimos.

Trans-Amazônia é a estrada sem fim. A obra em aberto. A ferida e a esperança. A piracema do rio caudaloso amazônico que se mistura com as lágrimas de todos que ali não têm vez ou voz. Um país em eterna construção. E destruição. Trans-amargura-sexual-viada-cendental. Nosso gigante obeso e com pressão alta à espera de consulta no SUS às margens plásticas. Êita brado redundante desse ‘dotô’ evangélico, disse a jovem Mãe que precisava de um aborto. O Pai, durante a inalação de “raios” túrgidos de coca-ína diz: Ó Pátria amada! BRASIL! BRASIL! BRASIL!

Tiago & Maggi retornando de Lábrea (última cidade da Transamazônica) no período de chuvas em Janeiro 2013...na última viagem de Sabá em sua kombi e nossos companheiros viajantes! De Lábrea para Humaitá (Amazonas), Brasil, 200km em 8 horas de viagem!  Janeiro 2013 Foto: Tiago Gambogi  Projeto Trans-Amazônia - Copyright 2012-2013-14

Tiago & Maggi retornando de Lábrea (última cidade da Transamazônica) no período de chuvas em Janeiro 2013…na última viagem de Sabá em sua kombi e nossos companheiros viajantes! De Lábrea para Humaitá (Amazonas), Brasil, 200km em 8 horas de viagem! Janeiro 2013 ; Foto: Tiago Gambogi – Trans-Amazônia – Copyright 2013

Tiago & Maggi retornando de Lábrea (última cidade da Transamazônica) no período de chuvas em Janeiro 2013...na última viagem de Sabá em sua kombi e nossos companheiros viajantes! De Lábrea para Humaitá (Amazonas), Brasil, 200km em 8 horas de viagem! Janeiro 2013 ; Foto: Tiago Gambogi - Trans-Amazônia - Copyright 2013

Tiago & Maggi retornando de Lábrea (última cidade da Transamazônica) no período de chuvas em Janeiro 2013…na última viagem de Sabá em sua kombi e nossos companheiros viajantes! De Lábrea para Humaitá (Amazonas), Brasil, 200km em 8 horas de viagem! Janeiro 2013 ; Foto: Tiago Gambogi – Trans-Amazônia – Copyright 2013

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