Curumim do açaí

Da esquerda p/ a direita: garoto Felipe, barqueiro ao centro e Sr. Cecílio Kayapó viajando em canoa com motor rabeta no Rio Xingu próximo à area de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte - Novembro 2012 - Foto: Tiago Gambogi Copyright Projeto Trans-Amazônia

Da esquerda p/ a direita: garoto Felipe, barqueiro Zé Nilton ao centro e Sr. Cecílio Kayapó (pai de Felipe) viajando em canoa com motor rabeta no Rio Xingu próximo à area de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte – Novembro 2012 – Foto: Tiago Gambogi Copyright Projeto Trans-Amazônia

Curumim do açaí
por Tiago Gambogi

Aí. A árvore do açaí é alta como poste de luz. Ágil, o pequenino garoto indígena sobe até o alto, as frutinhas estão frágeis no galho. Este igarapé vai sumir quando a Usina Hidrelétrica de Belo Monte se consumar. “Vai alagar a alma!”, disse o curumim. Queres um poste de luz com energia barata? É com urgência que precisas vir à Altamira, o carnaval do Rio de Janeiro pode esperar. Alta-mira: até quando se admira? O garoto canta como pássaro e salta lá de cima. Queda ou voo livre? Como madeira cortada ilegalmente que vai descendo o rio Xingu, o menino boia na água fria do igarapé. Mistura-se na eternidade que ainda existe ali. Será que morreu? Ele ri: “Tá com medo kuben (‘não-índio’)? Culpa é não fazer o bem”, completa. Ele sai da água e me presenteia com as frutinhas de açaí: “Vai em paz meu amigo”. Caminho na pinguela comprida até a luz do pôr-do-sol desaparecer. Expurgo o escuro. Preferes o sol ou uma lâmpada incandescente? Ou fluorescente econômica? Flúor ou Floriano (PI)? O barrageiro que encontrei era imigrante do Tocantins. Disse que tinha mulher, cinco filhos e que precisava melhorar de vida. O morador de rua em Belo Horizonte era do Maranhão. Disse que pedia dinheiro pra não roubar. Pra onde migra a sua ação? O curumim não é de Altamira. Ele é dali. Bem aí. Da árvore….aç-aí.

Tiago Gambogi é bailarino, ator, coreógrafo, diretor do Projeto Trans-Amazônia www.transamazonia.wordpress.com Copyright 2012-13

Area de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, Pará, Brasil - Novembro 2012 - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012-13

Area de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, Pará, Brasil – Novembro 2012 – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012-13

Marabá (Pará)

Livre queda Marabá - Foto Ederson Oliveira - Projeto Trans-Amazônia Tiago Gambogi Copyright 2012

Livre queda Marabá – Foto Ederson Oliveira – Projeto Trans-Amazônia Tiago Gambogi Copyright 2012

Criança Xikrin do Kateté - Foto por Ederson Oliveira - Acervo Porekrô

Criança Xikrin do Kateté – Foto por Ederson Oliveira – Acervo Porekrô

Sacrifício da corda - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Sacrifício da corda – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Bem vindo a Marabá - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Rodovia Transamazônica - Foto do Arquivo Fotográfico Miguel Pereira da FCCM - Fundação Casada Culturade Marabá

Rodovia Transamazônica – Foto do Arquivo Fotográfico Miguel Pereira da FCCM – Fundação Casada Culturade Marabá

Dinossauro negro - Foto por Ederson Oliveira - Tiago Gambogi na orla da Velha Marabá - Projeto Trans-Amazônia 2012 -

Dinossauro negro – Foto por Ederson Oliveira – Tiago Gambogi na orla da Velha Marabá – Projeto Trans-Amazônia 2012 –

Marabá (Pará), Rodovia Transamazônica BR-230, 7ª cidade visitada no Projeto Trans-Amazônia, Datas: 18/10 a 23/11/2012
Duração: 37 dias (com passagens por Parauapebas, Carajás, Eldorado dos Carajás, Serra Pelada; relato das respectivas cidades será escrito separadamente)

Marabá
Ma-ra-bá. A cidade de três sílabas, com três núcleos urbanos principais, que se assemelham a três cidades diferentes em uma só. Cidade três em um. Os bairros se espalham por uma área extensa, sendo necessário transporte motorizado para se deslocar facilmente.

Cada bairro nasceu com o desenvolvimento de uma atividade econômica. A Velha Marabá ou Marabá Pioneira surgiu a partir do cultivo da castanha do Pará; a Nova Marabá, quando da extração do ferro de Carajás e a Cidade Nova,durante a extração do ouro em Serra Pelada. Ah…há ainda o São Felix, depois da ponte por onde passa o trem da empresa Vale que leva minério da Serra dos Carajás até São Luís no Maranhão. Veja o site Justiça nos Trilhos sobre a atuação da empresa: www.justicanostrilhos.org

O desenho da Nova Marabá lembra uma castanheira, os bairros têm o nome de “folhas” e são numerados. O sistema de transporte urbano funciona adequadamente, mas às vezes os ônibus coletivos dão uma volta enorme passando por outros bairros até chegarem ao destino. Há também o táxi-lotação, um pouco mais caro, mas mais ágil e adequa seu trajeto ao destino final do passageiro. Os personagens principais da vida motorizada da cidade são os moto-táxis, ainda mais ágeis, ousados e caros (mais ainda se você tiver cara de gringo ou gaúcho).

Segundo o site “Descobrindo Marabá – almanaque virtual” (http://descobrindomaraba.blogspot.com.br) e o livro “Marabá”, de Paulo Bosco Rodrigues Jadão, a palavra Marabá é de origem tupi-guarani. Usada para designar algum aspecto indesejável nas pessoas na sua cultura ou para indicar pessoas mestiças, nascidas da mistura de índios com brancos.

“Marabá é legal!”, disse-me um jovem viajante que encontrei em Imperatriz, no Maranhão. Sim! Fui bem-vindo! Fiz amigos, parcerias, ministrei oficinas, envolvi-me com questões da classe artística local. Aqui eu sou Marabá e me misturo. Obrigado, Marabá!

O Rio Tocantins na orla da Velha Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

O Rio Tocantins na orla da Velha Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Saindo de São Bento do Tocantins (TO) em direção a Marabá (PA)
É na despedida que as pessoas se abrem um pouco mais. Partir é morrer e ninguém quer a morte do outro, não é? É na saída que doamos aquele algo mais. Sento-me na cadeira de macarrão (com fios de plástico amarelos), junto à Dona Lourdes e Valdene. “Vou pra Marabá”, digo. “Marabá é grande”, diz Dona Lourdes. É a primeira vez que me sento ali com as duas. Elas me perguntam se consegui fotografar as cachoeiras e entrevistar as pessoas na cidade. São carinhosas. Silêncio. Sol quente. O rapaz gentil que me vendeu chip de celular do Tocantins na drogaria passa em uma bicicleta bmx muito menor do que seu tamanho. Cumprimenta balançando a cabeça e dizendo um “ôpa” bem baixinho. Ao lado do dormitório de Dona Lourdes tem a loja de eletrodoméstico de sua filha, os produtos quase que na calçada. O ritmo de São Bento é devagar. “Quando será que os clientes virão?”, penso eu. Ao lado desta loja está o restaurante de sua nora. Ela me diz: “Ôxi, tu veio comer poucas vezes aqui, heim?”. “Desculpe, estava comendo lá na Luzilândia…”. Lealdade, concorrência e desejo de encontro na pequena cidade de São Bento. Olha! É o rapaz da drogaria de novo, passando, deve ter que entregar outra encomenda.

Depois de longo atraso a van chega. Agradeço e abraço Dona Lourdes e Valdene. O trocador coloca minha mala no carrinho que a kombi puxa, pergunto se ele vai amarrá-la, ele diz que “não tem perigo não rapaz”. A kombi não está cheia. Na última fileira vejo uma moça na penumbra, seus olhos gateados com sombra azul e duas crianças ao lado. Na fileira logo à frente, uma senhora de meia-idade, que vai fazer exames em São Raimundo do Araguaia. “Perdi a van da prefeitura, meu filho, vou ter que gastar o meu dinheirinho mesmo”. “Vamo embora que é pra hoje, senão o amanhã fica pra ontem”, brinca o motorista. Todos riem. A van segue devagar, parando em cada lugar em que alguém dá sinal. Um rapaz de boné e mochila surrada grita: “ôpa, me deixa no entroncamento?”. Sento-me na fila próximo à senhora dos exames, procuro o cinto de segurança e afivelo. A moça dos olhos gateados e sombra azul vê esse gesto e sorri, deve ter pensado “que bobagem, não precisa usar cinto”. Mais tarde converso com ela, que confirma exatamente o que tinha pensado. “Como tu sabia?”, perguntou curiosa.

Desci da van na cidade de Augustinópolis pra esperar o ônibus pra Marabá. Tomo um caldo de cana a um real. Vejo que a carteira do moço tá vazia e peço mais um caldo, pra facilitar o troco. A moça da van está do outro lado com seus dois filhos, eles pedem um sorvete para a mãe. Sento-me no banco de cimento da parada de ônibus ao lado de um senhor de camisa social listrada, bermuda e chinelo. “Num tô esperando o ônibus, moro aqui do lado”, diz. Ele fala que acha que o ônibus já deve ter passado. Ai ai ai. Não acredito não. De vez em quando todo mundo sabe tudo e é especialista em tudo, né?

As crianças tomam sorvete. Depois começam a rir e brincam de pega-pega ao redor da árvore. Converso com a mãe. Seu nome é Meiry e eles vão pra Marabá. Ela tira uma foto das crianças no celular, mas ficou escuro. Sugiro tirar onde tenha mais sol. “Abacaxiiiiiii!”, todos dizem. Ficou bom! O ônibus se aproxima. O trocador pergunta se estamos juntos, a gente se olha e diz ao mesmo tempo: “Não.”. Ele coloca as malas no bagageiro e apressa todos para subir. Boa viagem!

Seus filhos pegam no sono e Meiry pergunta o que estou fazendo aqui. Ela é simpática, tem um sorriso doce e uma presença tranquila. Morava no Tocantins e foi visitar seu namorado. Diz que este fim de semana é a procissão do Círio de Nazaré. Digo que vou fotografar a procissão. A gente combina de se encontrar lá.

Meiry alegria olhar - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Meiry alegria olhar – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Primeira noite em Marabá – 18/10/2012
Na rodoviária de Marabá peço ao moto-táxi pra me levar a um hotel bom e barato. “Na Velha? Na Nova? Na Cidade Nova?”. Sem saber, pergunto um pouco sobre os três bairros. “Onde está o rio?”. “Ah, tu qué o rio…então vá pra Velha!”. Tenho mochila nas costas e bolsa apoiada na perna e, ao lado, arrumação improvisada. O moto-táxi vai rápido, o vento forte ameniza o mormaço da cidade. Chegamos ao hotel todo amarelo. Moto é um cavalo possante com corpo quente que queima a canela. Êita bicho doido. A bolsa cai e queimo a panturrilha. Êita! …mas tudo ok…alegria alegria. Começa a chover forte, o moto-táxi agradece, a dona do hotel diz “entra logo, chuva no Pará não é brincadeira não!”. É bom chegar a uma cidade maior. A chuva persiste por uns 30 minutos.

Os rios Tocantins e Itacaiúnas encontram-se em Marabá. A cidade nasceu aqui. Na orla da Velha Marabá, duas moças com roupas coladas acabaram de malhar na academia Tryball (o pessoal aqui diz: tribal). É…não deixa de ser uma tribo…ou tatuagem? …mas não diga “tribo”, pois os indígenas preferem a denominação “aldeia ou comunidade”. Pois bem, elas conversam animadamente, falam de uma festa no fim de semana na boate na orla, seus pescoços se deslocam para frente, com um gosto gostoso pela conversa. Descalço, um menino de aproximadamente 8 anos se aproxima e pede dinheiro. Elas oferecem um sanduíche. O menino aceita e diz que volta daqui a pouco, “pode pedir um misto…eu volto…vou andar mais e pedir mais dinheiro”, diz. Muitos postes de luz na orla. MPB ao vivo nos bares e sempre um pouco de “arrocha”, que é a música do momento. São 8 horas da noite, alguns correm pela orla, outros tomam cerveja e comem churrasquinho. Mais longe e na penumbra, uma jovem pequena e magra encostada num poste. E no outro poste mais à frente, um travesti de braços fortes. O menino volta, senta-se e come seu misto-quente, e diz com alegria: “ganhei 3 reais!”. As moças perguntam onde ele mora. “Ali na frente, naquela casa”, aponta pra um lote vago. Devagar e olhando para os lados, a jovem e o travesti vêm em direção às mesas. Ambos têm sombra azul nos olhos. Ela pergunta: “Tu tá sozinho?”. “Estou”, digo. “A gente volta, tá?” sorriem e continuam a caminhada pela orla. Tomo uma cerveja. Penso na maquiagem…a sombra nos olhos! É a cor que redireciona o foco e atiça o desejo. E não é o corpo que traz o desejo, mas a potência do encontro por meio do olhar. A personalidade é bela quando os olhos brilham. É a sombra azul que dá o tcham e o olhar vibra. Cativa. Um patinador passa e quase derruba a cadeira branca de plástico com a marca da cerveja do patrocinador do bar. Um cachorro também passa, seus pelos como um carpete que não foi lavado. Tem sempre um idiota que diz: ”sai pra lá cachorro, vai embora!”. Fico ali. Tanta coisa passando. Melhor desligar a televisão chata (de tela plana!) que insiste em ser assistida. O grande acontecimento é a vida real bem ali na frente.

Converso com o poeta Ademir Barbosa, natural de Araputanga, no Mato Grosso. Ele vende seu livro “Palavras” pela orla da Velha Marabá. “Escrevo, financio e imprimo meus livros, sem patrocínio ou leis de incentivo. Depois viajo pelo Brasil vendendo meus livros. Eu e minha namorada. Somos nômades”, diz Ademir. Ele aluga um quarto em um hotel, pagando por mês. Talvez eu fique aqui um mês…boa idéia! Veja os poemas de Ademir Barbosa no site: http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=54533

Urubus reinam na Amazônia - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Urubus reinam na Amazônia – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Manhã do dia seguinte
Atrás da mesa da recepção do hotel, um banner grande com a foto de um rapaz todo vestido de branco. É o filho da dona do hotel. Foi estudar medicina no Rio de Janeiro. Curso completo, ele agradece à família e a todos que o ajudaram, junto a dizeres religiosos. “Meu filho é dotô!”, diz a mãe, orgulhosa.

Hotéis são lugares curiosos, com tantos tipos de pessoas! Duas freiras se sentam para o café da manhã (vieram para o Círio de Nazaré no sábado), um paramédico está saindo (terminou um dos cursos de primeiros socorros que ministra nas várias cidades do Pará, disse-me). A porta do quarto próximo à mesa do café se abre. Homem de bermuda e sem camisa diz que a cama quebrou e ele caiu durante a noite. Reclama com raiva. A dona do hotel ri. “Fico nesse hotel há mais de 20 anos e não muda nada, na verdade ele só piora”, alfineta. “Tô cansada de cliente que é vendedor. Vocês não cuidam das coisas e depois vêm reclamar”, rebate a dona do hotel. Eles seguem assim num bate-boca, alguns palavrões aqui e ali, mas depois de certo tempo vejo que estão brincando um com o outro e é essa a maneira de interagirem. Estranho senso de humor. “Vai lavar roupa hoje?”, ele pergunta. “Joga esse fedô aí que a gente dá um jeito…”, ela responde. Não gostei do tom da conversa. Decidi mudar de hotel naquele momento. Começa a chover de novo. Volto pro quarto. Tem uma goteira bem em cima de uma das camas de solteiro. Pego as sacolas de plástico e coloco ali. A chuva diminui e decido ir procurar outro hotel. Na volta, a dona está no telhado e me diz: “Tá chovendo no seu quarto e tu num ia dizê nada, heim?”.

Círio de Nazaré – Procissão no sábado dia 19 e domingo 20 de outubro 2012

A berlinda leva a imagem de Nossa Senhora de Nazaré - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

A berlinda leva a imagem de Nossa Senhora de Nazaré – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Braço, mão, corda, promessa - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Braço, mão, corda, promessa – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Multidão, óculos e tijolo - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Multidão, óculos e tijolo – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Casa própria - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Casa própria – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Contra a corrente e com a bicicleta - Círio de Nazaré - Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Contra a corrente e com a bicicleta – Círio de Nazaré – Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Cortejo fluvial sábado - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Cortejo fluvial sábado – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Força da fé - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Força da fé – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Caminhar - Círio de Nazaré - Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Caminhar – Círio de Nazaré – Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

A esperança vem do alto - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

A esperança vem do alto – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Juntos juntos continuar a caminhada -  Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Juntos juntos continuar a caminhada – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Quando o sol é quente a fé é mais forte -  Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Quando o sol é quente a fé é mais forte – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Crianças da Yaguara Cia de Dança fazem homemenagem para Nossa Senhora de Nazaré - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Crianças da Yaguara Cia de Dança fazem homemenagem para Nossa Senhora de Nazaré – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Fé das torcedoras em rosa - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Fé das torcedoras em rosa – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Fé em ângulo reto - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012


Fé em ângulo reto – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Explosão na procissão - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Explosão na procissão – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Guarda-sol e a energia solar  -  Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Guarda-sol e a energia solar – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Homenagem na frente de uma residência - Círio de Nazaré - Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Homenagem na frente de uma residência – Círio de Nazaré – Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Tática da proteção - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Tática da proteção – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Multidão espera para acompanhar o cortejo fluvial - Círio de Nazaré Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Multidão espera para acompanhar o cortejo fluvial – Círio de Nazaré Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Rede Carajás de Cooperação Cultural
Através de artistas ligados ao Ponto de Cultura da Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará (Arma) e do GAM (Galpão de Artes Marabá) tomo conhecimento sobre a Rede Carajás

de Cooperação Cultural e envolvo-me em reuniões e discussões sobre um projeto da Fundação Vale. Veja os artigos sobre a insatisfação e polêmica com o projeto da Fundação Vale:

Eu, Tiago Gambogi, cidadão brasileiro, escrevi o artigo Vale massacra a cultura em Carajás, publicado no site da Revista Caros Amigos, entre outros. Veja: http://www.carosamigos.com.br/index/index.php/artigos-e-debates/2821-vale-massacra-a-cultura-em-carajas

Veja o posicionamento da Rede Carajás no artigo:

Rede Carajás protesta contra apropriação indevida de seu projeto pela Fundação Vale:
http://redecom.wordpress.com/2012/11/19/rede-carajas-protesta-contra-apropriacao-indevida-de-seu-projeto-pela-fundacao-vale/

Início da reunião de membros da Rede Carajás de Cooperação Cultural e funcionários da empresa Vale - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012


Início da reunião de membros da Rede Carajás de Cooperação Cultural e funcionários da empresa Vale – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Improvisações / Intervenções em Marabá:
Performer: Tiago Gambogi
Video: Ederson Oliveira – obrigado pela parceria!
Apoio: Ponto de Cultura da Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará (Arma)

1. Vó Cila perguntava o porquê
2. O lixo e o esqueleto da casa de madeira
3. Deserto na praia de rio
4. Barcos e braços
5. Lavar a roupa e derreter o corpo
(links dos vídeos em breve)

Dormir durante a viagem de barco por águas de concreto - Foto Ederson Oliveira - Projeto Trans-Amazônia Tiago Gambogi Copyright 2012

Dormir durante a viagem de barco por águas de concreto – Foto Ederson Oliveira – Projeto Trans-Amazônia Tiago Gambogi Copyright 2012

Matéria sobre o Projeto Trans-Amazônia no SBT MarabáVeja: https://www.youtube.com/watch?v=IN7LC0D-Vsg

26.10.2012
Uhuuuuuuu! Aula de dança contemporânea ministrada por Tiago Gambogi na Yaguara Cia de dança – direção: Cláudio Yaguara; depois da aula assisti ao ensaio das coreografias de danças folclóricas da companhia. Apaixonei-me pelo carimbó!

Janinah Frankoski dançando Carimbó - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Janinah Frankoski dançando Carimbó – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Fora do eixo aula de dança contemporânea com Tiago Gambogi - Foto Cláudio Yaguara Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia)

Fora do eixo aula de dança contemporânea com Tiago Gambogi – Foto Cláudio Yaguara Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia)

Expandir o rosto, corpo e alma - aula de dança contemporânea com Tiago Gambogi - Marabá -Foto Cláudio Yaguara Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Expandir o rosto, corpo e alma – aula de dança contemporânea com Tiago Gambogi – Marabá -Foto Cláudio Yaguara Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Yaguara Companhia de Dança - Marabá - Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Yaguara Companhia de Dança – Marabá- Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Associação Porekrô – Comunidade Indígena Xikrin do Kateté – http://xikrindokatete.wordpress.com/
Rafael, um dos responsáveis administrativos na Associação, é gentil e atencioso. Apresenta-me ao Cacique Bemaiti, que está preocupado com o desaparecimento de um jovem indígena na mata. Mesmo com pouco tempo, os dois me mostram uma bela seleção de fotos da aldeia durante uma festa. Bemaiti fala pouco. Meço minhas perguntas. Bemaiti responde com poucas palavras, mas a conversa prossegue. De repente ele se levanta, não diz nada e sai da sala. Acho que foi ao banheiro.
Nesse intervalo, uma enfermeira que trabalha na aldeia entra na sala. Diz a Rafael que precisa tirar licença durante um tempo para se dedicar à família. A aldeia é de difícil acesso (por avião pequeno ou muitas horas em estrada ruim) e ela fica muito tempo fora de casa. Ela sai.

Bemaiti retorna à sala e conversa por telefone com funcionários da empresa Vale, a quem pede ajuda por meio de um sobrevoo da mata por helicóptero. Com voz firme ele diz: “A comunidade está triste”. O jovem índio está perdido na mata há 3 dias. Tinha saído com o pai para caçar – com uma garrafa de água e um revólver. Perderam-se. “O rapaz é jovem, não conhece a mata. Os velhos conhecem onde o sol nasce e se põe, a estrada, o rio”, completa. Ouço a conversa, preocupação e silêncio na sala. Existe urgência no tom de voz de Bemaiti. Vida-morte. Arrepio.

Converso com os dois sobre a possibilidade de uma visita à aldeia. Explico os propósitos e objetivos do projeto. Ambos se interessam, mas ficamos de conversar sobre datas, devido à disponibilidade de aviões e caminhonetes. Agradeci.

Vendedores de jeans na Feira da Folha 28 em Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Vendedores de jeans na Feira da Folha 28 em Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Feira de domingo na Folha 28
Saio andando pela feira de domingo na Folha 28. “Tira uma foto nossa!”, insiste um vendedor de jeans. “…mas tem que ser de lá pra cá, senão dá contra luz…poxa, até eu sei disso!”, provoca e brinca o vendedor. Sorrio e fotografo os dois. Fotografar feiras e mercados é prazeroso. Aos poucos as pessoas percebem a presença da câmera. Ir devagar e com verdadeiro interesse pelo universo das pessoas, aos poucos sou bem-vindo no espaço de cada um. “Essas fotos vão pra onde? Tu é francês?”, pergunta o adolescente. “Sou mineiro”, digo. “Não tem banana em Minas não?”, brinca, quando vê que estou fotografando um cacho de bananas. Uns sorriem, outros se escondem, outros se intimidam com o olhar da câmera. É meio-dia. Sento-me em uma mesa comprida no boteco mais movimentado. Tudo passa ali na frente. É como se algo fosse acontecer. Na verdade, tudo acontece…é a vitalidade da feira nos gestos, ações, sons. Do outro lado da mesa tem um senhor de meia-idade de camisa social azul clara e suada e um homem magro de camiseta regata e bermuda. Eles puxam papo e oferecem uma cerveja. O primeiro é engenheiro (mora em Fortaleza) e está construindo o novo shopping de Marabá. O segundo trabalha na obra e gosta de uma cervejinha no domingo, seu único dia de folga. “Marabá nem tem shopping!”, os dois dizem. “Venho aqui todo domingo. Tenho dinheiro, mas gosto é do povão.”, diz o engenheiro. “O senhor é gente de bem, quando for a Fortaleza fica lá em casa!”, convida.

O fiscal e os picolés - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

O fiscal e os picolés – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

A espera do peixe -  Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

A espera do peixe – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Invasões
Um terreno próximo à fábrica da Coca-Cola foi invadido e aos poucos se transformou em bairro, chama-se: “Invasão da Coca-Cola”. Existe também a “Invasão da Fanta”. Talvez seja vingança irônica, gesto quase que inconsciente das mesmas pessoas que sempre pedem a maldita bebida. A Coca-Cola invadiu o Brasil – trazendo açúcar, hiperatividade e potenciais problemas de saúde. E olha que também é o patrocinador da Copa do Mundo? Hipocrisia ou morte?!

17.11.2012
Audiência da Comissão da Verdade em Marabá sobre a tortura no período da Guerrilha do Araguaia – Veja os links:
Vermelho: http://www.vermelho.org.br/rj/noticia.php?id_noticia=199086&id_secao=1
Portal Orm: http://www.orm.com.br/noticia/noticia.asp?id=618629&|comissao+nacional+da+verdade+ouve+soldados+em+maraba#.UTUgYzfy2os

Poemas-ações-imagens

Geladeira com furo não gela
Fui colocar crédito no celular
Olha! Corre-corre! Mata-mata!
Traficante atira em outro traficante

Ouvi os tiros!
Acerto de contas?
Crack, cocaína, conta de luz, telefone
ou será que um olhou pra namorada do outro?

O tiro acertou uma geladeira que estava em promoção
“Ele tá jurado de morte…é a segunda vez que escapa”, disse o atendente da loja
“da outra vez a bala acertou um fogão”, completou
dessa vez foi uma geladeira
não vai ter cerveja gelada hoje à noite
a geladeira na promoção agora tem furo.

Ponte para São Felix e por onde passa o trem da Vale em Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Ponte para São Felix e por onde passa o trem da Vale em Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Mineiro na ponte do minério
O ônibus para fora do ponto
É só sol, estrada e mato

Êita!
o motorista do caminhão buzina pra moça
É um sai daí ou é paquera?

“Tens medo de mim, vejo nos teus olhos”
“Então…essa é a ponte do trem do minério de Carajás…”
“Mineiro! Já fostes a São Luís? Vamos?”

Homem de terno preto e gravata
Caminha em cima da linha do trem
com bíblia na mão
O trem aponta lá longe e ele salta pra estrada
será que é pastor?

O trem passa.
Continua passando.
Mais um trem.
Mais um dia.

“Aqui não é ponto turístico
então não tem mendigo nem ‘mala’,
não tem perigo…”

No boteco, bebidas e frutas
A melancia gelada traz rosa pros lábios-flor
E na jarra d’água, o reflexo do olhar

“Vê a conta…quanto é a melancia?”

“Eu vou pra cá.
Tu vais pra lá.
Velha Marabá.
Nova Marabá.”.
“Vá nesse moto-táxi, é mais barato. É ilegal.”
“Me liga, hein?”.

A luz e a alegria no rosto de Bianca - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


A luz e a alegria no rosto de Bianca – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

A luz e a alegria no rosto de Bianca

Cemitério multidão
o fogo e o escuro
as pessoas que se foram

quem vai
quem fica
quem ainda virá
a luz e a alegria no rosto de Bianca

Acender vela
Ou muitas velas
Vê-las queimarem

Rezar
ficar triste
chorar
ter gratidão, amor e compaixão
Ir embora
E comer pizza no fim da noite.

Tudo continua - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Tudo continua – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Ser irracional
Na praça da criança tem um foguete de brinquedo bem ao centro
Fico vendo as crianças subindo, pulando e correndo
Junto-me a elas e faço as mesmas coisas que elas fazem
Volto e sento-me no banco
Duas jovens testemunhas de jeová se aproximam de mim e sugerem que eu leia os provérbios sobre…
disciplina conhecimento aceitação repreensão ser irracional

Encontros / entrevistas / conversas

Meiry e seus filhos (Bruna, Bruno e Bianca) – simpática e alegre, conheci Meiry na viagem do Tocantins para Marabá e ficamos amigos!

Hotel Silva:
Dona Boneca – proprietária do Hotel, dedicada e trabalhadora. Frequenta a Igreja Maranata.

D. Boneca e sua amiga na varanda do Hotel Silva - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

D. Boneca e sua amiga na varanda do Hotel Silva – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Roberto Kossatz – paulista, dinâmico e animado. Veio para o Pará para trabalhar como garimpeiro em Serra Pelada nos anos 80. “Lembro-me de uma escada alta e nada confiável, o garimpeiro chegava lá em cima e gritava: ‘Adeus Mamãe’! A escada ficou com este nome”, contou-me e rimos juntos. Roberto já fez de tudo na vida, curiosamente também foi cantor de sucesso durante o período da Jovem Guarda. Veja: http://www.youtube.com/watch?v=7PP_WC_r3sk

Vino – bom de prosa, de corpo e fala forte, vendedor de roupas femininas. Foi pra Paraopebas, “porque lá dá dinheiro!”, disse.

O paranaense alto – “Há quanto tempo tu tá aqui?”, perguntou-me como se aqui fosse uma guerra.

João Bosco– do Mato Grosso, trabalha no Incra, comunicativo, gosta de fazer caminhadas pela orla no fim do dia.

Clésio – dono de uma loja de celulares, gentil, almoçamos juntos algumas vezes, deu-me dicas sobre a cidade.

Converso com uma família indígena Xikrin do Kateté – o marido fala português, devagar, às vezes não entendemos um ao outro. Cumprimento a esposa, mas ela não me responde. Disseram-me que é indelicado se dirigir às mulheres antes de falar com o esposo. A criança sorri, brinca e responde. Que bom ser criança, não é? Códigos sociais mais livres…ou em andamento…?!

Conversa com família indígena Xikrin no café da manhã do hotel - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Conversa com família indígena Xikrin no café da manhã do hotel – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Fundação Casa da Cultura de Marabá: entrevista com o diretor Noé von Atzingen (vídeo a ser editado), Cátia Weirich (Pinacoteca), Patrícia Padilha, Ramon Cabral e Douglas Cruz. Obrigado pelas várias fotos cedidas.

Noé von Atzingen - Presidente da FCCM Fundação Casa da Cultura de Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Noé von Atzingen – Presidente da FCCM Fundação Casa da Cultura de Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Patrícia, Douglas e Cátia na Fundação Casa da Cultura de Marabá - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Patrícia, Douglas e Cátia na Fundação Casa da Cultura de Marabá – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Rede Carajás de Cooperação Cultural
Tallentus Amazonia – Deíze Botelho e Jonas Carneiro – www.tallentusamazonia.com.br
Alixa (Alexandre Silva dos Santos Filho) – Núcleo de Arte Educação / Campus de Marabá / UFPA
Flávio Fernandes– Bailarino, coreógrafo, professor de dança. http://studiodedancaflaviofernades.arteblog.com.br/
Jeânia dos Santos Lima – FECOM – Federação
Hélio Dias – Intérprete/professor de inglês
Gilzane Morais – Ponto de Cultura da Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará (Arma)
Lacerda – ator e comediante. Também trabalha para o DMTU Marabá (Departamento Municipal de Trânsito e Transporte Urbano). Já realizou simulações de acidentes (http://www.youtube.com/watch?v=atdEzpUZEBc) e assassinatos (http://www.youtube.com/watch?v=-_e7IbdKt04)
Adenilson Barcelos de Miranda – fotógrafo, pintor, arte-educador. Site: https://sites.google.com/site/silencioconversado/
Márcio Holanda – produtor cultural
Ederson Oliveira – jornalista, videomaker, Aldeia Digital
Patricia Luz Holanda – Arte-educadora
Antônio Botelho – um dos responsáveis pelo GAM (Galpão Artes Marabá) http://gamemrede.wordpress.com/

Galeria de Artes Vitória Barros – Exposição da artista plástica Creusa Salame
http://galeriadeartevitoriabarros.blogspot.com.br/2012/11/exposicao-recortes-de-creusa-salame.html

Cláudio Yaguara / Yaguara Cia Dança – http://ciayaguara.blogspot.com.br/

Associação Porekrô – Comunidade Indígena Xikrin do Kateté – Cacique Bemaiti, Rafael, entre outros. http://xikrindokatete.wordpress.com/

Toca do Manduquinha: simpático bar/restaurante mais ao fim da orla de Marabá. Fica na ampla praça em frente à igreja. Havia um pequeno parque de diversões itinerante à sua frente.

Antigo Cine Marrocos - atualmente auditório multi-uso - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Antigo Cine Marrocos – atualmente auditório multi-uso – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Vendedor na Av. Antônio Maia na Velha Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Vendedor na Av. Antônio Maia na Velha Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Entrada do GAM (Galpão de Artes de Marabá) - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Entrada do GAM (Galpão de Artes de Marabá) – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Artista Antônio Botelho, um dos responsáveis pelo GAM Galpão de Artes de Marabá - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Artista Antônio Botelho, um dos responsáveis pelo GAM Galpão de Artes de Marabá – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Artigo no Jornal Correio do Tocantins por Ederson Oliveira sobre o Projeto Trans-Amazônia, 20 Novembro 2012

Jornal Correio do Tocantins - Marabá 20 de novembro 2012 por Ederson Oliveira - Projeto Trans-Amazônia Tiago Gambogi.JPG

Jornal Correio do Tocantins – Marabá 20 de novembro 2012 por Ederson Oliveira – Projeto Trans-Amazônia Tiago Gambogi.JPG

Despedida na casa da Professora Jeânia - Foto Tiago Gambogi - Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012

Despedida na casa da Professora Jeânia – Foto Tiago Gambogi – Projeto Trans-Amazônia Copyright 2012


Sites de interesse sobre questões ambientais:

Jornalista Lúcio Flávio Pinto: http://www.lucioflaviopinto.com.br/
Justiça nos trilhos: www.justicanostrilhos.org

Não Vale – um filme sobre os impactos da Vale em Carajás – http://www.youtube.com/watch?v=_SZodi4EO68

Agradecimentos a todos que me acolheram em Marabá e apoiaram o projeto:
Deíze, Jonas, Ederson, Alixa, Jeânia, Antônio Botelho, Gilzane, Dona Boneca, Rodrigo, Hélio, Rafael, Cacique Bemaiti e Associação Porekrô, Roberto Kossatz, Clésio, João Bosco, Noé, Cátia, Cláudio Yaguara e bailarinos da Yaguara Companhia de Dança, Paula e Jailson (Dunga) do SBT Marabá.

Agradecimentos especiais à: Meiry e seus filhos (Bruna, Bruno e Bianca) e sua família.

Muito obrigado! Luz! Amor! Sempre!

Apoio: Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará – ARMA Ponto de Cultura, Rede Carajás de Cooperação Cultural, Fundação Casa da Cultura de Marabá, Associação Porekrô.

Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará - ARMA Ponto de Cultura

Apoio: Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará – ARMA Ponto de Cultura

Apoio: Fundação Casa da Cultura de Marabá

Apoio: Fundação Casa da Cultura de Marabá

Obrigado Marabá eu vou mas eu volto - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia


Obrigado Marabá eu vou mas eu volto – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

(Relato Projeto Trans-Amazônia – Marabá (Pará) – termina aqui)

Performance: BELA MORTE = BELO MONTE + NORTE ENERGIA + GOVERNO FEDERAL BRASIL

Tiago Gambogi durante performance na porta da Norte Energia em Altamira (Pará) sofre excesso de força física por seguranças da empresa - 13 Dezembro 2012

Tiago Gambogi durante performance na porta da Norte Energia em Altamira (Pará) sofre excesso de força física por seguranças da empresa – 13 Dezembro 2012

Performance: BELA MORTE = BELO MONTE + NORTE ENERGIA + GOVERNO FEDERAL BRASIL
Performer: Tiago Gambogi
Imagens – Jornal Cidade Livre, TV Nazaré Altamira
Imagens – Margaret Swallow
Data: 13/11/2012
Local: Altamira, Pará, Brasil

Video + Reportagem: http://www.youtube.com/watch?v=KXR22_4Ljdc

(TRANSLATION – ENGLISH)
Reporter: A Brazilian artist, travelling through Brazil collecting material for his Project Trans-Amazonia stole the show during Altamira’s fishermen’s protest, right in front of Norte Energia’s building (company responsible for building the Belo Monte dam).

Using theatre he illustrated the death of the river and the suffering of the fisherman due to this enormous construction work of the Brazilian federal government, which already has an impact on people and traditions. He then made his way into the foyer of the building where a closed meeting was taking place.

The boat, the fishermen’s traditional means of transport, was forced inside the building where there were representatives of Norte Energia and the Brazilian Federal Government. The meeting was behind closed doors, which caused a confrontation at the front door.

(Crowd chant “Let him in! Let him in!) (Boat & crowd enter!)

Tiago Gambogi – Here in Altamira the focus of my research is Belo Monte. I am against Belo Monte, it’s impossible not to be against this. We need to stop this monstrosity NOW…! There is still time! It just needs all of you (points) watching this, do something all of you, for the love of God – can’t you see the stupidity of all of this. Environmental issues aren’t a joke! This is serious!

Reporter: The fishermen demand answers regarding the impact that they are already suffering with the building of the Belo Monte dam.

Only a small group of the fishermen’s leaders took part in the meeting with Norte Energia, IBAMA and the Ministry of Fisheries and the Public Defender and other organisations.

The remaining of the working fishermen were not allowed into the meeting and stayed in the foyer of the building and outside.

Jorge Luiz – fisherman – We had invitations, but they didn’t deliver what they promised because we are all here outside – waiting.

Reporter: Mrs Raimunda lives in the village of Belo Monte and said that the situation with the fish in that area is already difficult.

Mrs Raimunda – fisherwoman – It’s bad! …because for us to fish….there are almost no fish anymore. We are very close to real hardship… because if we have to count with the fish…there are not many…what can we do?

Reporter: Senhor Antônio shows his fishing licence, says that he knows first hand the sad consequences of building hydroelectric dams in Porto Velho’s rivers. He already knows that there will be direct impact to the rivers and to those whose survival depends on the river.

Senhor Antônio – Where I used to fish for a particular fish, I can’t catch anymore. This is not the first dam area that I’ve worked on. I lived and worked in an area near Porto Velho in Rondônia (a state south of Pará), on the river Jamari and there is a dam nearby. It was the dam. When I first arrived the fish were of one kind. After they built the dam…(and it’s a small river!) Five years after the dam was built there were lots of problems, the fisherman had big problems. In the area where we lived we couldn’t fish any more. They say this area won’t be affected. It’s a lie – it will be. It’s already affected.

Reporter: And you, as a fisherman, are you worried about your future and your family?

Senhor Antonio – It’s not just me – it’s lots of people and it’s not just the fisherman who will be affected.

Reporter: None of you have received answers, how you will receive a settlement… (ref to financial settlement from Belo Monte)

Senhor Antônio: I think this is difficult – to get a definite decision from this meeting.
Reporter: The Social Movement entered in the meeting to defend the various residents that live in the city in neighborhoods that will be directly affected by the dam. More than 30,000 families will have to be moved from their houses.

Antônia Melo – Xingu Vivo – We are here supporting the fight of the fishermen, for them to be recognized, for their right to be guaranteed a settlement and, also, demanding that IBAMA give us a meeting, a public audience, with the 14 neighborhoods, with all the inhabitants of the neighborhoods that are in a situation of risk and are impacted by this project.

These families have to leave their houses because of Belo Monte. We are here to talk with IBAMA because this public organisation has been hiding from the population, they haven’t been consulting with the population and they are listening to other people that don’t represent the affected population and we demand an urgent meeting with them for the more than 30,000 people of this city, people who are being damaged by this project called Belo Monte.

Tiago Gambogi – Performance outside Norte Energia:

(Arrival – Spins boat. Applause)

You work for Norte Energia? You are well?

What’s your work? Fisherman? Is it truth? Do you know all this people here?
So that’s ok dear friend!

I am a fisherman!

It’s all blocked! Access prohibited!

So…what’s worth more… 100.000.00 thousand reais (ref to financial settlements) or a whole river?

(Ties “No Entry” tape to posts)

And so! You’re really going to put up with all of this?

(Poster: IBAMA – respect the laws and the people – STOP BELO MONTE NOW!)

Health, yes, of course I want health. Therefore then I need as well the river, the forest, the animals.

I don’t need cheap energy, rotten, settlement (applause)
I don’t want to live by the rubbish dump, no! Seems this is the latest, isn’t it! (Norte Energia to build houses right next to rubbish dump)

Norte Energia thinks that people are rubbish, so they’re going to send everyone to live next to the rubbush dump! I can’t believe it!

Aaarrggghhh! Oh the progress of Brazil!!

In truth I am the son of President Emilio Garrastazu Médici (he built the Transamazonian Highway) I am Emilio Garrastazu Médici Jr. and now I work for Norte Energia. Hahaha…!
This is a spy of Norte Energia. You here, what’s your name?
Do you work for Norte Energia (approaches man on steps) (employees wear blue shirts & jeans usually).

Please, How are you? Everything ok man? Dear friend?
He says: Everything tranquile.
So what do you do man?
He says: I work.
You work for this monstrosity? (Man: no, private company)
Open your heart! Open your heart! He doesn’t want to open his heart!!
Isn’t it? He doesn’t want to open his heart. Now he’s going away slowly…

Because there’s no more heart in this shit…there is no more heart…no…

(Dead tree on head. Beats heart)

Doesn’t have a heart, no!
(Applause)
(Runs after car)

(Stops car in road. Bursts blood over his head)

Arrrggghhh
(Throws tree away)

(Falls in road – second “death”. Woman draws around body in chalk))

Do you want Belo Monte (Beautiful Mountain – name of the hydroelectric dam) or do you want a Bela Morte (Beautiful Death)???
Belo Monte or Beautiful Death??
Which do you prefer? An imported mobile phone? Three thousand reais at the end of the month? Huh? And your son? Huh? What is he going to do???

(Jumps tape)

(Someone shouts: Xingu River alive!)

(Writing on road says: Vida! Life!)

(To various cars: go on you all, move on…quick.)
(Car draws up – the public defender)

Hey public defender! What are you going to do for your people? Defend your people!
(Applause)

If anyone wants to say something – feel free!

I’m a fisherman! And I’m going to the meeting!
(Pulls boat up front steps)

I’m a fisherman and I want to go to the meeting now!!!

Aaargh! Help me with the boat!

I’m a fisherman, I moved to this region and I want to go to the meeting now.
Do not touch me.
Do not push me.
(Crowd chant “Let him in! Let him in!)

Let me free, don’t hold me, I’m not pushing you.

(Tussle with security at front doors)

Tiago enters the foyer, with all the supporters flooding through the doors!

“I’m a fisherman and I want to go to the meeting”

Tiago Gambogi registered as a fisherman and tried to enter the meeting itself, but was prevented by the security. However, the meeting was disrupted and IBAMA, Ministry of Fisheries and other bodies entered into discussion with Xingu Vivo, the fishermen and others in the foyer.

Assine e compartilhe a petição BELO MONTE JUSTIÇA JÁ!
https://secure.avaaz.org/po/petition/PARE_BELO_MONTE_2/?aOYIeab&external

Matéria no site do Movimento Xingu Vivo: http://www.xinguvivo.org.br/2012/12/16/indenizacao-para-pescadores-do-xingu-sera-decidido-na-justica-dizem-tecnicos-do-governo/

Site Racismo Ambiental: http://racismoambiental.net.br/2012/12/indenizacao-para-pescadores-do-xingu-sera-decidida-na-justica-dizem-tecnicos-do-governo/

MSN Notícias
http://noticias.br.msn.com/fotos/imagens-da-semana-desde-09-13?page=6

Notícias/links em sites internacionais: (in English)

http://www.courant.com/news/nation-world/hc-the-day-in-pictures-20120325-143,0,150560.photo

http://www.60news.com/brazil/today/brazilian-actor-dancer-tiago-gambogi-acts-out-a-5.htm

http://www.jsonline.com/multimedia/photos/183440931.html

(Em Português):
http://www.impala.pt/SimpleList.aspx?idCat=2186

APOIE O MOVIMENTO XINGU VIVO
Visite o site, entenda o que está acontecendo e se envolva.
Sua ajuda é essencial! Muito obrigado, Tiago Gambogi
www.xinguvivo.org.br

VALE massacra a cultura em Carajás

Árvore Imbaúba e o buraco da mineração da VALE na Serra dos Carajás - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

Árvore Imbaúba e o buraco da mineração da VALE na Serra dos Carajás – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

VALE massacra a cultura em Carajás

VALE comete erros inadmissíveis na relação com artistas e organizações culturais na região de Carajás no Sul do Pará

Por Tiago Gambogi

Publicado em:
Caros Amigos: http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/artigos-e-debates/2821-vale-massacra-a-cultura-em-carajas
Blog Zé Dudu: http://www.zedudu.com.br/?cat=55

Se já não bastasse o prejuízo ao meio ambiente na região da Serra dos Carajás, no Sul do Pará, causado pela atividade mineradora, a empresa Vale lança novo programa cultural milionário que desconhece, ignora e massacra a cultura na região. No dia 17 de novembro, em Parauapebas (Pará), a Fundação Vale lançou o ‘Programa Cultural de Tucumã e Parauapebas’ – denominado inicialmente ‘Rede Carajás de Cultura e Arte’ até um dia antes de seu lançamento. Segundo seu material de divulgação, “a proposta é contribuir para a valorização dos setores artísticos e culturais, a qualificação de educadores e produtores, o aperfeiçoamento criativo e técnico de artistas da região e a geração de novas oportunidades de acesso da comunidade à produção cultural”, por meio de cursos gratuitos oferecidos ao longo de 2013. Utilizando palavras chave em propostas culturais como interdisciplinaridade, multiculturalismo, parceria, processos colaborativos e sustentabilidade, reúne profissionais competentes e traz uma proposta válida e positiva.

O projeto foi viabilizado por meio da Lei Rouanet pela Fundação Vale, tendo a Vale como patrocinadora e uma produtora do Rio de Janeiro, como executora. No entanto, a empresa comete erros inadmissíveis no processo de desenvolvimento do projeto – desde a pesquisa inicial sobre a demanda, os projetos já existentes, interesses dos grupos locais, até durante o seu próprio lançamento.

Iniciativa

A Rede Carajás de Cooperação Cultural é uma iniciativa com atividades na região desde 2009. Segundo seu manifesto, foi lançada em 2009 por iniciativa do Galpão de Artes de Marabá (GAM), que, em interface com diversos atores e organizações culturais atuantes em níveis regional, nacional e internacional construíram, num processo de quatro anos, um caminho possível para a promoção do desenvolvimento cultural regional por meio da colaboração mútua entre governo e sociedade.

A Rede Carajás abraça 12 municípios da Região de Integração Carajás em um recorte territorial feito pelo Governo do Estado do Pará em função de similaridade e proximidade entre os municípios – território de cidadania do sudeste paraense. Foi conveniada com a Secretaria de Estado de Cultura e Ministério da Cultura por meio do edital de criação de Pontos de Cultura do Pará (2008), ação vinculada ao Programa Cultura Viva e Mais Cultura do Governo Federal. Atualmente composta por mais de 60 grupos e organizações, tem representação junto à Comissão Paraense e à Comissão Nacional de Pontos de Cultura do Brasil. A Fundação Vale, no entanto, até três dias antes do lançamento do projeto, desconhecia a existência da Rede Carajás e nomeou o seu projeto: ‘Rede Carajás de Cultura e Arte’.

Pedido de Apoio

Seis meses atrás, membros da Rede Carajás se apresentaram e pediram apoio a um representante da Vale em Parauapebas. Ele elogiou o projeto e disse que seria exatamente o tipo de iniciativa que a empresa teria interesse em apoiar. Vários meses se passaram e nenhum prosseguimento nas negociações aconteceu, nem tampouco foi repassada a informação para a equipe no Rio de Janeiro sobre a existência do projeto. Da mesma forma, em Marabá, o setor de ‘Relações com a comunidade’ da Vale não sabia da existência do projeto da própria Fundação Vale, que foi desenvolvido e gerenciado pela equipe no Rio de Janeiro. Como é possível uma empresa como a Vale possuir tantos problemas de comunicação interna?

Após receber um convite eletrônico da Fundação Vale para o lançamento da ‘Rede Carajás de Cultura e Arte’, a Rede Carajás de Cooperação Cultural convocou uma reunião em Marabá na sexta-feira, dia 16 de novembro, com representante da Fundação Vale do Rio de Janeiro, dois artistas integrantes de seu projeto, dois membros da Diretoria de Relações com a comunidade (de Marabá) e artistas e organizações da Rede Carajás de Cooperação Cultural. Após exaustiva reunião, foi concordado verbalmente o seguinte: 1. o nome do projeto seria modificado; 2. a Fundação Vale realizaria suas ações já programadas no dia seguinte (sábado), mas não lançaria oficialmente o projeto e reiniciaria uma conversa e discussão com a já existente Rede Carajás sobre uma possível reformulação do projeto. No entanto, no sábado, a Fundação Vale cumpriu somente um dos pontos combinados: mudou o nome do projeto, mas foi adiante e lançou oficialmente o projeto bem na frente de vários artistas/membros da Rede Carajás. Como é possível uma relação de transparência e confiança com uma empresa que realiza ações dessa forma? E mais, por que não foi realizada uma pesquisa adequada e sistemática sobre os grupos locais e os projetos culturais já existentes – suas atividades, objetivos e interesses?

Atropelos

Da mesma forma como as comunidades indígenas na região de Altamira não foram consultadas de maneira adequada sobre a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, artistas e organizações culturais na região de Carajás não foram consultados. Em Parauapebas, artistas envolvidos no projeto da Vale se pronunciaram e defenderam o projeto, falando sobre seus benefícios para o município e chamaram seus colegas de Marabá de oportunistas. É preciso ver que a Vale tem obrigações e responsabilidades com toda a região e não só com os municípios de Parauapebas e Tucumã. Seu projeto é orçado em 2 milhões e 700 mil reais para um período de atividades menor que um ano. Esse valor poderia ser utilizado facilmente em toda a extensão da região de Carajás.

A empresa Vale e o município de Parauapebas possuem uma relação peculiar, algo como uma codependência, na qual o município enriquece com a ação da mineradora e ao mesmo tempo é oprimido por seu poder avassalador.

Mais uma vez a Vale mostra a que veio: seu poder hegemônico compra tudo e todos, numa ação colonialista, com comunicação truncada, cheia de buracos e gastos inflacionados. Seu projeto é um verniz cultural absurdamente caro em relação ao qual a própria região de Carajás não foi consultada. Será que a empresa vê a cultura como minério? Artistas não podem ser atropelados pelos caminhões gigantes dessa transnacional.

Violações

É também alarmante como nenhum debate sobre a gravidade do impacto das ações da empresa no meio ambiente é realizado pelos artistas participantes. Como aceitar apoio da Vale – empresa com violações comprovadas, eleita a pior empresa do mundo em enquete promovida por ONGs em 2012. Aceitar apoio é legitimar essa situação. Do ponto de vista das políticas culturais, vê-se também que a Vale só tem a ganhar com a atual Lei Rouanet, por meio da qual seu investimento financeiro real é irrisório. Além disso, a empresa tem o poder de escolher quem vai apoiar. E o artista, quais escolhas tem? Quem não entrar na sua dança sai perdendo, quer dizer, dança! E cai!

Faz-se imperativo e necessário uma reavaliação das políticas de leis de incentivo e os editais das empresas. A cultura transforma-se em joguete, objeto, verniz cultural sobre a madeira podre de uma Floresta Amazônica cada vez mais inexistente, num cenário de impactos ambientais e mazelas sociais alarmantes. E a gravidade da questão ambiental? Quem se importa? Alguém ainda fala nisso? Claro que não! O progresso! Sim! Brasil! Ordem…e progresso, tá na bandeira pra gente lembrar, né? E os dilúvios, guerras, falta de comida, inchaço populacional, falta de saneamento básico e lixões ao deus-dará? Que venham então projetos culturais para entreter e aliviar um pouco a nossa dor.

“Milagres Brasileiros”

Se em 1972 o presidente Médici criou a Transamazônica, 40 anos depois, a ex-guerrilheira presidente Dilma prepara o segundo milagre brasileiro com direito à Copa do Mundo e às Olimpíadas. Vamos assistir nas nossas TVs de plasma, celulares touch screen e caminhonetes 4×4 ao som de muito sertanejo, samba e forró. A festa é quente até a Vale transferir todo nosso minério a preço de banana (90 reais a tonelada) para a China.

Ao invés de agregar valor ao minério – desenvolvendo pesquisa e tecnologia no Brasil – o país exporta em alta velocidade seus recursos naturais. Tirar tudo o mais rápido possível parece ser o mote da empresa. Com suas máquinas fotográficas poderosas, chineses virão ao Brasil assistir aos gols da seleção brasileira em novos e reformados estádios, entusiasmar-se no carnaval com nossas mulatas, e, depois, ir a Ipanema, comer sushi e tomar saquê enlatado com o alumínio extraído de Carajás. Carajás!? Será que ainda vai existir?

Eldorado, Belo Monte e Cultura

Em 1996, o massacre de Eldorado dos Carajás, o assassinato de 19 sem-terra pela polícia do Pará. Agora, Belo Monte está a todo vapor! O massacre dos recursos naturais já acontece desde 1500. E agora? O que falta? O massacre da Cultura. Será que ainda existe tempo para que toda essa monstruosidade cesse? Será que existe a possibilidade de um diálogo consistente entre a já existente Rede Carajás e a Fundação Vale para a criação de projetos e parcerias verdadeiras na região de Carajás?

Tiago Gambogi é coreógrafo/bailarino/performer, diretor de teatro, realizador do PROJETO TRANS-AMAZÔNIA www.transamazonia.wordpress.com

Macaco atropelado no Núcleo Urbano da VALE na Serra dos Carajás - Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia - Cópia

Macaco na rua do Núcleo Urbano da VALE na Serra dos Carajás – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012 Projeto Trans-Amazônia

São Bento do Tocantins (Tocantins)

Livre queda – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Encontro depois da queda – Cachoeira do Salto – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Água, pedra e o através – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Leito queimado – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Placa na Rodovia Transamazônica na entrada de São Bento do Tocantins – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012


São Bento do Tocantins (Tocantins) Rodovia Transamazônica – BR-230 (entre o km 92,2 e 99,9), 6ª cidade do Projeto Trans-Amazônia

Datas: 12/10 a 18/10/2012
Duração: 5 dias, 6 noites
Passagem por Axixá (Tocantins): 11/10, 1 noite; via Imperatriz (Maranhão)

Introdução
Para criar contraste com a última estadia (Balsas, no Maranhão), escolhi São Bento do Tocantins, pequena cidade no norte do Estado do Tocantins. Fui bem recebido, mas todo lugar tem seus hábitos, dinâmica e São Bento realmente gerou novas questões.

A princípio senti certa desconfiança por parte dos moradores sobre o trabalho que estava desenvolvendo ali. “Que pesquisa é essa? Pra onde vão essas fotos? Você recebe pra isso? Não quero dar entrevista não, acho melhor você conversar com…” Acho que fiz muitas perguntas logo nos primeiros encontros e às vezes assustei as pessoas. Mas tudo bem, aos poucos fui aprendendo a me colocar e interagir naquela sociedade.

Cheguei no dia 12 de outubro, feriado nacional, dia de Nossa Senhora Aparecida (Padroeira do Brasil) e Dia da Criança. A cidade estava lenta e pacata. E nos próximos dias também continuaria lenta e pacata.

Devido a esses fatores decidi, inicialmente, por atividades mais introspectivas. Dediquei-me aos meus poemas. Depois, resolvi dar o foco da estadia à natureza, que estava ali tão próxima, generosa, linda e de coração aberto nos arredores da cidade. Decidi fotografar algumas das várias cachoeiras da região – Cachoeira Caracol, do Salto, da Borracha, das Lages. Também realizei algumas entrevistas/conversas com o professor João Paulo sobre a história da cidade e o engenheiro agrônomo Fábio, sobre seu trabalho na fazenda da siderúrgica Sinobras.

Encontros / conversas / entrevistas
João Paulo – professor, atualmente trabalha na biblioteca da escola estadual e também planta e comercializa bananas.
Adalena – moça que trabalha no cybercafé.
Lorrane – prima da Adalena.
Fábio – engenheiro agrônomo, trabalha na Sinobras, casou-se em São Bento e está aqui há 7 anos.
Luzilândia, Seu Zé e seus dois filhos – têm um restaurante em uma das ruas principais de São Bento.
Claudivan Tavares – prefeito eleito. Não foi possível realizar a entrevista gravada pois ele viajou neste dia.
Edilon – senhor de 60 anos que encontrei na festa de Claudivan no domingo. “A mulher me largou, peguei este menino pequeno pra criar, moro no sítio e sou aposentado”, disse.
Filé – rapaz da Fazenda Caracol.
Dona Lourdes e Valdene – Mãe e filha, donas do Hotel da Luz.
Antônio – mineiro de Viçosa, faz inventário florestal para a empresa Sinobras.
Andarilho – caminhei com ele quando o ônibus para a festa atolou, disseram-me que ele já matou 3 pessoas, mas foi gentil comigo. Foi urinar no mato. Uma moto veio e eu peguei uma carona.
Edileuza e Mauro – donos da pousada na Cachoeira das Lages. Comi tatu na casa de seus amigos.
Moacir e Daiane – ele trabalha nos Correios, ela é historiadora.
Zé – motorista de ônibus da Sinobras.
Rapaz que gosta de uma quentinha – jovem, gosta de uma cachaça durante o serviço, a família o rejeita e ele “dá problema no serviço”, disse a patroa. Foi gentil, contou-me sobre as cachoeiras da região em detalhes.
João do Macaco – é dono do único mototáxi da cidade e tem ainda um bar movimentado. Foi meu companheiro nas andanças em busca das cachoeiras.
Homem do saco – ele entrou na pousada com um saco enorme, óculos escuros e um chapéu de palha grande e redondo. Pediu um quarto. Nunca mais o vi. Dona Lourdes ficou curiosa, pra não dizer desconfiada, sobre o homem.
Comercial Dois Irmãos e bar da praça – um casal administra esses dois negócios.
Mercadinho ao lado do Hotel da Luz – o rapaz tem TV por assinatura e assiste a filmes no fim de semana. Atendeu gentilmente o transexual que fazia compras ali no sábado.

Professor João Paulo na Praça no centro de São Bento do Tocantins – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Engenheiro Agrônomo Fábio na Fazenda da Siderúrgica Sinobras – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012


Rota em direção a São Bento do Tocantins (TO)

Balsas (MA) – Imperatriz (MA) – Axixá (TO) – Augustinópolis (TO) – São Bento (TO). De Balsas vou em direção à Imperatriz, mais uma longa viagem de ônibus, confortável em uma boa estrada. Chego à Imperatriz à noite, o trânsito das 18horas é maluco. De mototáxi vou até o centro onde depois de muita espera consigo uma van para Axixá. Durmo lá, cidade pequena, em um pequeno hotel com venda de churrasco ao lado e carros de som na rua tocando forrós de”plástico” e funk. No dia seguinte sigo em direção a São Bento do Tocantins. O ônibus simplesmente não veio, esperei por 1h30min. Junto com dois moradores sentados na calçada, disseram que às vezes isso acontece. Outro ônibus apontou lá na esquina com destino para Augustinópolis. “Pega este e vá pra Augustinópolis, de lá você pega outro pra São Bento.” E lá fui eu. Em 30 minutos chegamos a Augustinópolis, cidade também pequena, mas mais rica do que Axixá. Um rapaz disse que hoje em dia não se pode falar rico ou pobre, deve-se falar com mais ou menos recursos, senão você é preso por discriminação. O politicamente correto chegou por lá também. O ponto do ônibus fica junto a um bar e uma sorveteria. Na televisão – campeonato europeu, acredito, Espanha contra Bielo-Rússia. Ônibus atrasado…o rapaz disse que quebrou e vai demorar…ôxi…mais um! Espero…junto com outras pessoas o ônibus que vai pra Palmas, via São Bento. Ele chegou às 20horas, com 4 horas de atraso. Mas tudo ok. Esperar é a atividade daquele momento. E lá seguimos até São Bento do Tocantins, chegando por volta das 21horas. Tudo escuro, alguns bares abertos. Consigo um quarto em um dormitório/hotel e vou até a pequena praça da cidade. Adolescentes sentados em suas bicicletas conversam, uma caminhonete estacionada com som alto e cerveja na mesa ao lado. Converso com o dono e tomo um refrigerante. Ele diz que aqui é tranquilo e que tem belas cachoeiras. Vou dormir. Acordo com a criançada da casa ao lado gritando e brincando…êita! Coloco uma proteção de ouvido, seus gritos estão bem ao fundo e durmo! Levanto e vou até a sala da casa de Dona Lourdes, a dona do Hotel da Luz. Valdene, sua filha me diz: “Entra!”. Tudo tão informal, não é um hotel, é a casa da mãe e da filha. “Você vende o quê?”, ela pergunta. Digo que não vendo nada e que vou fazer filmagens aqui. A gente conversa e ela acaba me contando que o novo prefeito teve um acidente de carro seriíssimo um mês antes da eleição e quase morreu. A população se mobilizou para ajudá-lo. Houve uma grande comoção e apoio com ajuda financeira e ele venceu com uma diferença de 500 votos (a cidade tem aproximadamente 5000 habitantes, contando as áreas rurais). “Quer ir à casa dele?”, Valdene pergunta. Fiquei surpreso, mas digo sim. É logo ali. Em uma construção simples com telhado de folhas de babaçu, muitas pessoas estão sentadas em cadeiras dispostas em círculo e conversando. Ele é simpático e conversamos. Peço para entrevistá-lo na segunda-feira, pois amanhã domingo é o dia da festa de comemoração de sua vitória. Conheci Daiane e Moacir. Ela é historiadora ,de Ituiutaba, MG e ele de Goiânia, GO trabalha nos Correios. Estão aqui há pouco tempo. Converso com ela sobre minha pesquisa. Em uma manhã na cidade estive na casa do novo prefeito. Fantástico! Viva e obrigado!

Avenida principal em Axixá (Tocantins) – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012


Em Axixá do Tocantins

Axixá é o nome da árvore de frutos avermelhados que dá nome à cidade
Ônibus não veio
espero na calçada com pai e filho especial (usou óculos de grau incorreto e perdeu a visão) e sua menina bebê
Vidro quebrado no chão e ela querendo comê-lo
Ele diz que o povo de Axixa é o mais bobo do mundo
O outro rapaz sentado está aqui há pouco tempo, casou-se

No início fala pouco, mas depois que embala ele não para
vira um monólogo, às vezes me desligo – digo sim, legal, tudo bem
Mas difícil acompanhar o raciocínio
Será que todos nós precisamos ventilar idéias nos ouvidos de alguém?

Caminhões passando em uma estrada pequena
Pessoas passam e cumprimentam-se
todos se conhecem

Sem dono – O terreno que se vende – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Domingo, 14 de 0utubro de 2012
Às 6 horas o carro de som do prefeito eleito Claudivan Tavares anuncia sua festa
Às 7 horas chuva pesadíssima e trovões
A luz treme e falha, será que haverá festa?

Sim! Claro! Festa da vitória!
Meninas jogam futebol com roupa molhada depois de entrar no córrego
Não há banheiro nem latas de lixo aqui
Mas latas de cerveja e cachaça de graça
“Sou crente. Não bebo. Minha mulher me largou.”
A menina derruba o menino no futebol
Ela toma a bola e sai driblando
e sorrindo

Meninas e meninos jogam futebol durante a ‘Festa da Vitória’ do prefeito eleito de São Bento do Tocantins Claudivan Tavares – Foto Tiago Gambogi – Copyright 2012


São Bento – (1)

Existe uma necessidade de competição nas relações dos seres humanos do sexo masculino
Corporal e intelectual
Quem não dá porrada
quer mostrar-se sabedor de tudo e ter a palavra final
Aconteceu comigo aqui
ainda mais um forasteiro – um novo amigo ou uma nova ameaça?
Isso me tira a energia vital
meu coqueiro balança mas não cai.

Aqui a empresa Sinobras cultiva grandes áreas de eucalipto para fazer carvão para os fornos da siderúrgica no Pará.

No cybercafé a moça não sabe a senha para conexão
tomo a iniciativa e procuro eu mesmo.

“É subindo ali pra riba”, ela diz, mas não aponta nem pra direita nem pra esquerda quando perguntei sobre um lugar pra almoço.

O homem diz: “…depois que os índios descobrem ar-condicionado e água gelada não querem mais voltar pra vida que tinham antes…”.

Pôr-do-sol na Fazenda Caracol – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

São Bento – (2)
Nem sempre as coisas fluem.
Na verdade fluem sim, da maneira que tinha que ser
Com meandros não esperados, solavancos, algumas paradas e bloqueios
mas fluem.

A água vai por entre as pedras em corredeira
Poça de água parada – aí é problema – não há saída
Mas quando transborda e cai no rio
ah, aí sim!

Talvez a maior ignorância seja não reconhecer quando não sabemos algo.
Chato é ter mania de querer ter razão sempre.

A água explode e flui com vontade!

Água atômica – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Poemas escritos durante estadia em São Bento do Tocantins (TO)
Tiago Gambogi, Projeto Trans-Amazônia, Copyright outubro 2012

White paradise
(to Maggi)

Paradise is a very close place my love

clouds lingering in this yellow sky
you have those green blue eyes and that killer smile
said hello thank you took me by the hand and invited me
for a drink in my own room

We jumping while you gave me a beautiful present
Under the tree
Flying confetti
Flying me and you

Paradise is this flight
Your blue delightful eyes
White bright skin big smile
Whispering lips perfect ‘classics’
Hips roaming swimming in this paradise

Cup of tea drink me lick
Blondie tcham you dear babe bomb
Come to love jungle dear
White room we disappear
Under white sheets
White paradise

Dentro da cavera e a cachoeira lá fora – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Tudo que vai embora

Nós dois de chinelo na estrada de chão
tua palavra é faca de manteigueira
mas como é cortante!

Silêncio é ausência, canal bloqueado
cadê o pé de Deus? E o pé do Diabo?

nem olhar no olho não olhas mais
não compartilhas o que tens
esse quarto não tem janela

Viver na memória do que foi
Deus é a senha pra conexão wi-fi na lan house da esquina
“É lá pra riba”, tu dizes…o que é?

Não tem espelho no banheiro
Como vais saber a cara que tens quando acordas de manhã?

Desconfiança do teu próprio medo…que loucura, como pode?

quando é que tu não existes em teu próprio corpo?
Des-aparece Zabriskie Point? Onde está Antonioni?

Quando é que franzes a testa com medo
quando alguém te olha?
Quando é que tu não abraças?

Veredão, cachoeira de 6 metros de altura
Salto mortal que mata o rapaz alto na cachoeira do salto
Quando é que dói
E a água te mata?

Quase tudo que deságua no mar é rio
Até as lágrimas que vertem dos teus olhos
A pele é a terra que recebe
O que vai nascer ali então?

Quando alguém te pede perdão
E tu não concedes? Abre o coração mulher!

Quando é que
tu
falhas
e vais
embora
correndo
na chuva
e nem
olhas pra
trás?

Beijo no lago ou queda da árvore? – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Esguicho do lixo

Big bang uhuuuu hahaha bilabum ôôôô sai do chão poeirão carro velho no sertão os continentes se separam e a gente nasce vamos morrer inundados e assim mesmo o lixo continua aumentando todo mundo jogando latinha na rua não é? Pra algum outro limpar? Desculpe, mas esse outro não vem! Hahaha! We are all doomed dear! Sábado à noite a mulher vende cerveja mas parece não querer pois ela é evangélica como pode uma coisas dessas? Escolher um trabalho contra seus princípios? Disparada de cavalo o menino cai bate a cabeça vai pro hospital o pai desmaia de preocupação caralho cuida do menino poxa culpa terrível perdoa-te na moto o homem não tem capacete a criança está atrás segurando na cintura do pai tudo tudo tudo tanta coisa errada ou ruim? Tu achas? O que é certo? Coloca-se como pobre como rico como quem quer ser vereador vereda vertente tudo aqui é coisa bíblica ou nome de apóstolo ou nome inventado misturado com coisas americanas meu amor cadê você não aguento mais será que é dependência vício muleta ou amor de verdade? Vem aqui tá tão longe será que a saudade se mede em quilômetros? Ou em milhas? Como se converter? Em cristão, evangélico? Ou ateu? O que é o amor afinal Brad Pitt e Angelina Jolie atração explicada tudo não tem segredo sobe os chacras e vá ler um livro que questão é essa que te aflige cítara índia mar morto boiando corpo Israel Cila Nigel Jimmy todos foram embora deste mundo não tenho medo da morte sabes que és isso no Brasil não conjugam o verbo na segunda pessoa corretamente todos querem que os índios se fodam e dizem que essa porra ululante de estrada Rodovia Transamazônica BR-230 trouxe progresso desenvolvimento nem devíamos estar aqui sabes tantos filhos trepar meter fuder transar fazer amor estrelar o inconsciente fuck e fazer crianças que gritam correm e trabalham e se escravizam pra ti? Quem vai cuidar de ti na velhice? Não comer legumes e tomar coca-cola? É esse o objetivo da vida? Na igreja evangélica o pastor diz que a vida não é Hopi Hari…tu és de São Paulo querido irmão? Essa população aqui não sabe do teu parque de diversões. Em Sampa todo mundo se mata ou rouba armas potentes em empresas de segurança. Pra poder se drogar. Pra poder chegar ao nirvana. Kurt Cobain Michael Janis Elis. Quando é que tu vais parar de dizer eu não sabia? Sabes tudo e não sabes nada hahahaha difícil não dormir quando a conversa está chata o corpo relaxado e o carro balançando, não é? O lixo esguicha sujo e feio, a cachoeira esguicha limpo e lindo. Adeus. A Deus.

Cachoeira da Caracol – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Cutuca aqui lindeza!

Cutu

Chá
Chá
Café
Tudo
Tudo é tudo

Té té té
Té té té
Cutu
Cutu
Cutuca

Café
Chá
Coloca leite
Ou natural mesmo de camomila?
Tu és inglês?
Francês?
Japonês?
Turco?

Tchau tchau tchau
Vai vai vai
Down down down
Vai descendo descendo
Via dutra via expressa
Onde é que vamos?

Cutuca onde?
Ai ia ai ui ia ui
Ali aqui vai descendo
A escada tem quantos degraus?

Frutas não-proibidas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Beleza desconhecida – Foto Tiago Gambogi Copyrght 2012

Frutos e formigas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012


Preciso de 50 reais pra pagar a conta de luz moço

Ele atirou e matou
Bem aqui no terceiro olho
Agora quem morreu vai virar sábio

Chora chora chora
Ri ri ri
Lava a roupa e bate nele
E diz que tá gostosinho
gulosinho(a)?
isso é nome de trailer de lanches na madrugada!

Come quente
Panelada quentinha feijoada
São 130 batimentos por minuto
Ôxi menina!

Vamos pulando a corda
Ela está batendo rápido hoje
Todo dia quando a gente se vê aqui

Melhor do que cortar cana ou colher café né?
Segura minha bolsa moço?
Meu marido está prostrado
Preciso de 50 reais pra pagar a conta de luz
Me ajuda aí moço?

Antena verde – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Jacaré passando rodo

Aqui tem jacaré
Tem rodo tem vassoura
Tem onça pintada
mulher gata que arranha com ciúme
Eu lavo a roupa na pia do banheiro

A oca do índio tem ar-condicionado
É questão de conceito de desenvolvimento sabes?
Mermão
Mamão dá em todo lugar?
Tu achas?
Escorregou no banheiro
Bateu a cabeça
A cidade não tem hospital
Morreu na ambulância
Viajando 6 horas pra cidade mais perto.

Morcegos na caverna – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Modelo antigo de forno para queima de eucalipto para produção de carvão com o objetivo de alimentar os fornos para produção de ferro-gusa no sul do Pará – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Beijo meu não gera filhos

Amo-te no Acre é vero?
Abandonados os dois assim
Longe é perto

Vamos pra lá no Natal?
Umas férias assim no meio das onças
Sem ciúme heim?
Com pintura de urucum na pele ao invés daquele blush importado?
Hum délicatessen
Azeitona queijo parmesão ou carne seca do sertão querida?
Uísque escocês ou caninha 51?
Vem pra minha oca coração de melão!

PJ Harvey disse algo assim na música “The Dancer”:
“Galopando rápido como fênix queimando
Luz esplendor glória
O que é que Deus me enviou?”

Sou simples do interior mas tenho dentes brancos
Sou trabalhador e amoroso
Tu queres?

Vou financiar um carro
Te garanto
Quantos filhos tu queres?
Não quero nenhum!

Amor e cachoeira – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Cama na cachoeira – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Lava jato 747

Esgueira a mangueira rodopia
Vento furacão vodka forte com limão
Vem girl boy boy em bollywood
Todos dançando disco teca é teu nome
Eu sou teu faraó
Vem linda!
Parece político falando com profissionais do sexo depois de campanha
1000 reais?
Quanto custa o teu amor?
Com beijo é mais caro?
Barato assim?
Homens com barriga! Acho uó!
A mão dele era tão seca pois lavava carros no inverno inglês
A namorada o largou
Não aguentava os carinhos
Ele era bombado de academia
Mas murchou
Será que flor precisa de músculos?

Árvore sente solidão? – Cachoeira da Borracha – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Preço da lágrima

Aluga um barraco
Pra’gente
Chorájunto
a vida tá ruim demais

Eu quis
Tu também
Então
Que papo burguês de melancolia é esse?
Ah vá…à…lá…má…quê quê bá…black sheep
Também quero melancolia!

Essa amiga da melancia no domingo
Tudo parado nem jogo de futebol tem
Achava que ia ser diferente

Não sei fazer feijoada nem tu
Mas paixão não tem toucinho

O céu com chuva sol roxo por do sol
Me faz chorar.

Véu de lágrimas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

A dor da água quando cai da cachoeira – Cachoeira da Borracha Foto Tiago Gambogi Copyright 2012


Piscina

Tu mereces esse sapato apertado que calças?
Estás a fim da namorada da tua amiga?
Ou do namorado do teu amigo?
Ficas aqui ou mudas pra cidade vizinha
Eu de terno e tu de vestido azul lindos
A filha dela era feminista logo que nasceu
lagoa te faz feliz ou preferes o mar?
A piscina não é rio mas é bom também.

O lago é o abrigo da água – (vista em cima da Cachoeira do Salto – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Ônibus-abrigo – Transporte para os trabalhadores – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

O ninho é o abrigo do pássaro – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

 Frio mais som

Pássaro cavalo
Asas cascos
Debaixo do vidro do shopping center
Cidade está bonita hoje

Estação de trem que parada tu vais descer?
Tem lua no céu nesta estação? Senão não desço!

Esta viagem é minha e sua um segredo só nosso
Passagem de ônibus aumentou dia-a-dia todos apertados
Que segredo é esse?
Tu danças esquisito assim só quando bebes?
Será que o “frisson” fica só para o fim de semana?

Quando a água pára em queda livre – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

17 de outubro de 2012, quarta-feira
Solidão é incapacidade de conectar com os outros seres humanos aí na sua frente naquele presente momento? Estou sonhando com as pessoas que gosto…mas que não estão aqui na minha frente…ai ai ai…conecta aí rapaz!

18 de outubro de 2012, quinta-feira
Obrigado a São Bento do Tocantins e a todos que me acolheram aí nessa pequena cidade: Dona Lourdes, Valdene, Luzilândia, Seu Zé, Antônio, Fábio, Seu João Paulo, Seu João do Macaco, Claudivan, Daiane e Moacir,Edileuza e Mauro e outros em São Bento do Tocantins! Grande abraço!

Auto-retrato próximo à Cachoeira das Lages – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Cachoeira das Lages – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Plantação de eucaliptos em grande escala da empresa Sinobras – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

O conflito e a resolução nas águas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Praça principal no centro de São Bento do Tocantins – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

– F I M (Relato São Bento do Tocantins, Tocantins) –

Balsas (Maranhão)

Tiago Gambogi – Filmagem em Canaã – Rio Balsas – Foto Gyspson Junqueira Copyright GJ-TG

Tiago Gambogi – Filmagem no Sertão – Foto2 Gypson Junqueira – Copyright TG-DS-GJ 2012

Contato com o Rio – Tiago Gambogi – Foto Gypson Junqueira – Copyright TG-GJ 2012

Balsas (Maranhão) Rodovia Transamazônica – BR-230 (entre o km 366,8 e 405,1),  5ª cidade do Projeto Trans-Amazônia
Datas: 30/9  a 11/12/2012
Duração: 10 dias, 11 noites

Balsas – (1)

Balsas! Rio-agro-cidade-RIO!
aguafluxovamos!
Bóia paz quente e brincar
…Ser tão humano
no sertão…
Obrigado, Balsas!

Saí cedo de Oeiras (Piauí) pra pegar o ônibus para a cidade vizinha – Floriano (ainda no Piauí). Uma besta passou – eu já tinha comprado a passagem do ônibus, mas decidi ir de besta mesmo pra não perder o ônibus em Floriano. O cinto de segurança do banco traseiro não funciona, e o motorista e a “copilota” não o usam: quando passamos por uma cidade, eles atravessam o cinto pelo peito e fingem que o conectam. Pra quem será que estão mentindo? Pra Polícia Federal? Pra eles mesmos? Ele dirige rapidamente ao som de serestas antigas e forrós que nunca ouvi, vento batendo no rosto. Estou atrás ao lado de um rapaz pernambucano que está voltando para o Maranhão e um outro. Eles não se conhecem. Devem ter uns 30 anos, queimados de sol, magros e fortes do trabalho braçal, caras fechadas. Rolam olhares de reconhecimento e desconfiança entre nós ali atrás. Aos poucos eles sorriem e o medo vai embora. O pernambucano terminou um serviço de construção de ponte, disse que paga-se bem. Pé na tábua e chegamos a Floriano. Depois de uma hora de espera chega o ônibus pra Palmas, no Tocantins. Ônibus cheio, várias pessoas em pé (isso é ilegal). Reclamam do calor, depois do frio do ar-condicionado, que não dormiram, que estão de ressaca…reclamar…reclamar…é chato quando é demais, né? Lá na frente um homem começa a fazer piadas sobre a estrada, depois sobre o motorista…todos riem, descontraem-se… Muito homem junto em um mesmo lugar a testosterona ferve e aí vem a …misoginia! De acordo com o sociólogo Allan G. Johnson, “a misoginia é uma atitude cultural de ódio às mulheres porque elas são femininas”. Piadas de mau-gosto, agressivas. As mulheres o vaiam. Alguns riem, fica aquele clima entre a tensão e o sorriso amarelo.

Chegamos em Balsas no fim da tarde. “Ô amigo…me leva pra um hotel bom e barato!” digo ao mototaxista. Uma bolsa nas costas, a outra entre mim e ele, chegamos ao hotel Escalibur 2. Será que vou encontrar a lendária espada por aqui? Excalibur. Chegar, cumprimentar e negociar. Estou me acostumando a esse ritual. Brinco com Valdeci sobre o nome do hotel, mas ele não conhece a lenda do Rei Artur. Em algumas paredes vários decalques com dizeres em inglês americano, com um toque infantil e sentimental : “hello, I love you!”, “I miss you so much!”, “Awesome!”.

Domingão. Êita dia danado! Parado, melancólico…que às vezes dói e míngua. Veja a performance ‘Dóiminguão’ http://www.youtube.com/watch?v=gaMIEs8QIqs. Caminhonetes 4×4 nas ruas, gritarias de pré-eleição, coca-cola e hamburgers, mataram duas pessoas em uma boate agora há pouco. Estados Unidos da América? Não. Brasil! A princípio não simpatizei com a paisagem, mas vamos lá. Coração aberto.  A primeira noite de sono aqui foi a melhor de toda a viagem: exausto, o corpo finalmente se permite descanso.

Rio Balsas vista da ponte de Madeira – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Encontros, conversas,  entrevistas e parcerias artísticas

*Gostaria de agradecer imensamente a todos os artistas por sua generosidade e participação no projeto.

Deusamar Santos – cantor e compositor de MPB (http://www.acaobrasil5.blogspot.com.br/),com mais de 20 anos de carreira.Chego à sua casa e fico feliz em saber que compartilhamos temáticas semelhantes em nosso trabalho, como no seu show ‘Terra’, que fala sobre a destruição do meio ambiente.

Deusamar Santos – Cantor e Compositor – Foto2 Tiago Gambogi Copyright 2012

Adauto Carvalho – percussionista, trabalha com Deusamar Santos no show ‘Terra’. Adauto também trabalha na biblioteca e me ajudou a pesquisar documentos sobre a história da cidade.

Adauto Carvalho – Percussionista – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Júnior ‘Servo’ – artista visual, grafiteiro (https://www.facebook.com/#!/ARTISTASERVO), é baiano de Salvador e mora em Balsas há algum tempo, tem vontade de morar no exterior para adquirir outras experiências com o grafite e difundir a cultura brasileira por lá.

Artista ‘Servo’ (Antônio Júnior) – Foto2 Tiago Gambogi

Artista ‘Servo’ (Antônio Júnior) – Foto4 Tiago Gambogi

Artista ‘Servo’ (Antônio Júnior) – Foto3 Tiago Gambogi

Artista Servo (Antônio Júnior) – Foto1 Tiago Gambogi

Gypson Junqueira – fotógrafo e engenheiro agrônomo. Realizamos uma entrevista sobre o comércio da soja em Balsas e também filmagens no sertão, na pedreira e no rio Balsas.

Gypson Junqueira – Engenheiro Agrônomo e Fotógrafo – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sérgio Smith – ator, ministra oficinas de Maculêlê em um projeto social; trabalha nos Correios, entre outras atividades. Também foi colaborador nas filmagens.

Sérgio Smith durante reunião com Grupo de Maculêlê – Foto Tiago Gambogi – Copyright 2012

Ana Barros – jovem atriz, trabalha na novela Terra Nova; colaboradora nas filmagens. (foto mais abaixo – Cena NOW-FRÁGIL).

Carlinha – atriz,trabalha na APAE.

Gustavo – enfermeiro; obrigado, amigo, por sua colaboração nas filmagens.

Bar da Magal – talvez o único bar ‘alternativo’ da cidade: promove exposições, shows de música e eventos culturais. Magal é muito conhecida na cidade, dinâmica, ativa, mulher da cultura!

Valdeci, Lucia, Célia – trabalham na pousada/hotel Escalibur 2.

Ronáibio e Cleonice – casal empresário que tem uma sorveteria e restaurante. Ronáibio também cria obras de arame e faz decorações para festas e eventos com frutas e legumes.

Ronáibio termina de esculpir a melancia em flor – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Flor na Melancia por Ronáibio – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Danielle Milet – arquiteta, trabalhou na campanha eleitoral.

Ingrid – trabalhou na campanha eleitoral.

Jessica –do Pará; mudou-se recentemente para Balsas, trabalha como garçonete.

Dona Maria Alice – lavadeira.

Dona Maria Alice lavando roupas no Rio Balsas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Dona Maria Alice e a Ponte de Madeira – Rio Balsas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Célia – professora, trabalha no Museu do Sertão.

Anderson e Alan – economistas.

Nei do lanche – carioca, dono de uma lanchonete.

Não consegui encontrar: Edilza Virgínia, Secretária de Cultura, também musicista e artista plástica. Fez o hino da cidade. Estava de férias e envolvida com as eleições.
Francisco de Assis – ator e repórter, havia viajado.

Filmagens, fotos e parcerias artísticas

Sertão – Tiago Gambogi / Gypson Junqueira
http://www.youtube.com/watch?v=hkGppbkQFtU

Tiago Gambogi – Filmagem no Sertão – Foto1 Gypson Junqueira – Copyright 2012 TG-DS-GJ

Tiago Gambogi – Filmagem no Sertão – Foto3 Gypson Junqueira – Copyright TG-DS-GJ 2012

Deusamar Santos / Tiago Gambogi / Gypson Junqueira
TERRA (1) http://www.youtube.com/watch?v=hMwJ9cEN14k

TERRA (2) http://www.youtube.com/watch?v=QVeAOIPMDIk

Pedreira – Deusamar Santos / Tiago Gambogi / Gypson Junqueira

Tiago Gambogi – Filmagem na Pedreira – Foto4 Gypson Junqueira – Copyright 2012 TG-DS-GJ

Tiago Gambogi e Deusamar Santos – Filmagem na Pedreira – Foto5 Gypson Junqueira – Copyright 2012 TG-DS-GJ

Deusamar Santos e Tiago Gambogi – Filmagem na Pedreira – Foto2 Gypson Junqueira – Copyright TG-DS-GJ 2012

Rio Balsas – Tiago Gambogi / Gypson Junqueira

Tiago Gambogi – salto Rio Balsas – Foto Gypson Junqueira – Copyright TG-GJ 2012

Fotos / Performance – Vala e Valor – Tiago Gambogi / Sérgio Smith / Ana Barros 

Vala e Valor 1 – Performer Tiago Gambogi – Foto Sérgio Smith – Copyright Gambogi-Smith 2012

Vala e Valor 2 – Performer Ana Barros – Foto Sérgio Smith – Copyright Gambogi-Smith-Barros 2012.JPG

Vala e Valor 3 – Performer Sérgio Smith – Foto Tiago Gambogi – Copyright Gambogi-Smith 2012.JPG

Cena – NOW-FRÁGIL – Ana Barros / Sérgio Smith / Tiago Gambogi

Ana Barros – Cena NOW-FRÁGIL – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sergio Smith -Cena NOW-FRÁGIL – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Performance – ‘À margem do lixo’ – Artista Servo (Antônio Júnior) / Tiago Gambogi

Artista Servo (Antônio Júnior) – Performance ‘À margem do lixo’ – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Balsas – (2)

Nos Correios, envio um sedex para o Rio de Janeiro, um projeto para uma oportunidade de criação para o ano que vem. Sérgio Smith, no caixa, diz: “Vai demorar 5 dias pra chegar lá. Tu tá no sul do Maranhão rapaz, é longe!”. A gente conversa um pouco, ele diz que tem uma graduação em Pedagogia e que já foi a Minas Gerais para uma conferência. Dias depois a gente se encontraria em um restaurante por acaso na hora do almoço e conversaríamos com mais tempo até fazermos uma parceria em filmagens. Ele me conta que está atuando na primeira novela produzida em Balsas, ‘Terra Nova’ – veja o trailer: http://www.youtube.com/watch?v=BNDID7Z5ADI

Sigo as ruas que levam para o centro, elas me levam até a ponte de madeira. Ah…esse é meu lugar favorito na cidade. Tudo converge para lá: os banhistas, as lavadeiras à beira do rio, os estudantes, as pessoas que cruzam para a Trezidela (ou Trizidela; nome dos bairros que ficam do outro lado do rio em cidades do Maranhão), as motos e as bicicletas (únicos veículos que transitam na ponte), enfim, o local que é ao mesmo tempo cartão postal e identidade da cidade.

Almoço em um bar restaurante à beira – rio. Está tudo tão alegre! Segunda-feira, e as pessoas se banham no rio, tomam cerveja e escutam forró. Sensacional! Disseram que na Trezidela houve um homicídio ontem em uma boate, acerto de contas do tráfico de drogas. Cuidado!? Atravessei a ponte, andei por lá. Casas pequenas, ruas de calçamento, pequenas lojas, crianças indo pra escola. Não ouvi tiros.

Forró Pegado canta nas caixas de som “Vó tô estourado, vó tô estourado, vó tô estourado, segunda-feira eu tô largado…”. Hahahaha. Gustavo Lima completa depois: “As mina pira quando a gente chega na balada, fazendo rodinha com baldinho de cachaça.” É engraçado e cruel como as mesmas músicas se repetem nos diferentes estados por onde passo. Ditadura cultural. Globalização.

O Rio Balsas tem uma correnteza forte. Todo ano em julho acontece o ‘Verão Balsas’, evento que dura uma semana ou mais. Descidas de bóia em grupos, shows na beira do rio, festas, a cidade festeja e celebra seu rio.

Nos primeiros dias peço a um mototaxista para me levar a alguns pontos da cidade: empresas de soja, o estádio de futebol, um bairro rico, um bairro pobre, os bares do rio, a prefeitura, entre outros…ele sorri e fala: “Tá bom, vamos lá!”. Na garupa e com a câmera na mão vou clicando ali da moto mesmo.

De moto taxi pelos bairros mais distantes em Balsas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Por do sol no muro do estádio de futebol em Balsas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Balsas – (3)

Dizem que há 30 anos, os “gaúchos” (não significa só o pessoal do Rio Grande do Sul, mas todos aqueles que vêm de estados brasileiros do sudeste e do sul), descobriram a região de Balsas como uma área propícia para o plantio de grãos, sendo a soja o principal. Compraram grandes propriedades e desmataram grandes áreas para o cultivo da soja. Empresas brasileiras e multinacionais se estabeleceram na região. Ouvi pontos de vistas contraditórios: “maranhense é preguiçoso. Gaúcho é que trouxe o progresso pra cá” ou “gaúcho trata o maranhense como escravo. Explora, tira tudo e depois vai embora. O legado que eles deixam aqui é esse calor infernal. Desmataram a região e criaram impacto ambiental imenso”. Há algo estranho nisso tudo, como se a colonização que aconteceu no sul do Brasil por alemães, italianos e outros europeus continuasse aqui nesse momento presente.

Balsas é uma cidade cheia de ‘forasteiros’, como dizem aqui, pessoas de vários lugares do Brasil, dedicando-se ao agronegócio. Daí as grandes caminhonetes nas ruas e os bairros ricos em que as ruas tiveram calçamento feito pelos próprios moradores. Nos bairros pobres, nem saneamento básico existe, e as pessoas tumultuam o comitê eleitoral para receber 50 reais por dia do candidato vencedor. Encontrei-me com Tânia, de 19 anos, do Grupo de Maculêlê que o Sérgio Smith coordena. Ela disse que sua rua se chama Presidente Médici. Vamos até lá e criamos uma foto. Veja abaixo:

Tânia grita na Rua Presidente Médici – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Balsas (4)

Êita cidade quente. O quarto aqui tem uma pequena janela no banheiro. Parece que não existe ar aqui, o que é que o ventilador vai fazer circular? Cinco dias sem dormir, estou ficando louco. Louco mesmo, sabe? Decidi mudar para um quarto com ar-condicionado!

Na Praça da Matriz encontra-se o Banco da Amazônia. Curioso! Vale a pena pesquisar. Qual sua preocupação com a Amazônia?

No domingo, dia de eleição, fizemos uma filmagem na beira do rio à tarde (com Sérgio Smith, Ana Barros e Antônio Júnior). Carla, mãe de Ana, veio assistir e ajudar. Encontramos uma senhora que mora em uma casa muito simples, a Dona Maria. 42 anos, magra, pele morena de sol, ela é gentil, tem o rosto sofrido e aparenta ser muito mais velha para a sua idade. Seu marido tem 27 anos e está prostrado na cama. Os médicos não sabem o que ele tem. Estranho! Como assim? Ele fica ali deitado no escuro o dia todo. No dia em que choveu a casa quase caiu. Dona Maria pediu ajuda à Carla, se a APAE poderia contribuir para os reparos do telhado feito de papelão, palha de babaçu e pedaços de metal. A gente conversa, o coração aperta. Por que existe sofrimento? Por que? Dias depois encontrei-a na rua por acaso, mostrou-me a conta de luz, dei-lhe uma ajuda.

A ponte de madeira dança, tem remelexo, balança.
Mais uma vez o sotaque muda de estado para estado, ‘tu’ ao invés de ‘você’ continua.
A cidade tem 5 candidatos a  prefeito.

Vereador excêntrico, Alexandre, o Pensador, veste-se de pescador e fica com uma vara na calçada, o anzol preso, ele pede ajuda a quem passa. “Tu pode me ajudar?”, só vou consegui pescar com a ajuda do povo. “Não voto aqui não amigo…”, digo. “Não tem problema, então me ajuda a distribuir os folhetos, ajuda de alguma maneira, não tá vendo que eu tô me esforçando!”. Atirado o rapaz, heim?!  Outro vereador que me chamou a atenção pelo seu nome: Jhon Leno. Nem Alexandre, o Pensador, nem Jhon Leno foram eleitos em 2012.

Praça da Igreja Matriz – Balsas, Maranhão – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sábado 6 de outubro

Hoje fui a Canaã. Não é Israel, faixa de Gaza ou Cisjordânia…é a parte do rio Balsas, no Maranhão, conhecida pela descida de bóia. Aha! O cantor Deusamar Santos disse que eu “tinha” que descer, mas que não era para ir sozinho…Não consegui ninguém para ir comigo, então decidi ir sozinho, sei nadar e disseram que o rio é tranquilo. Paulo do mototáxi me levou lá. Consegui uma câmara de ar de caminhão em uma borracharia na BR-230 e fomos em direção a Canaã. Erramos o caminho três vezes: primeiro saímos em uma pedreira, depois em um sertão pegando fogo e pela última vez…um senhor disse que já tínhamos passado a entrada. Tão perto e tão longe. Ele foi o enviado divino que nos deu as coordenadas corretas. Foram realmente 40 minutos em estrada de terra e areia fofa. Motocross do sertão! E chegamos lá. Meu dinheiro não era suficiente e fiquei de pagar o restante ao Paulo amanhã. Ele foi gentil e nos despedimos. Olhei para o rio e nos saudamos. Confiança. Entro na boia e vou. Lindo! Experiência em deixar ir, correr, flutuar, ir para lá e pra cá tocando a água. Tantos sons por perto: passarinhos, água correndo, insetos, sapos, bichos no meio do mato…e lá na frente, música alta em caixas de som potentes de carro. Aos poucos me acostumo com a boia, o rio e a paisagem. Os olhos são como uma filmadora fazendo movimentos lentos contínuos com muita estabilidade – panning with a dolly ou com uma steadycam, diriam. O sol está fraco e vai emoldurando as árvores na beira-rio. Passo por várias pessoas. A gente se cumprimenta de longe. Às vezes rola uma observação – quem são eles? Quem sou eu? E depois um gesto de oi tudo bem? Tem pessoas que me veem, outras não. Às vezes o rio fica raso e o corpo começa a bater na pedra. Ôpa! É só levantar. Algumas pequenas corredeiras. E a luz vai indo embora devagarinho, pôr-do-sol lá longe, laranja entre as árvores. Será que eu vou chegar à cidade ainda com luz? Não. Ficou escuro, bateu um pequeno medo, mas aos poucos a noite clara mostrou o caminho. E o rio…ele sempre corre, a boia sempre continua, é só abrir bem os olhos que a gente tudo vê. Depois que a noite chega, aí me entrego mais ainda à experiência. Não há saída. Tudo na meia-luz e eu dentro de uma boia, com a chave do quarto no bolso e uma bolsa de moedas (sem moedas e sem dinheiro). Ali dentro da água, o corpo fica frio, mãos e pés dormentes. Mexo pra lá e pra cá. Tudo ok. Estou vivo e atento. Feliz e em paz. Descanso, mas não pode dormir aí não heim, rapaz! Duas lanchas passam e um jet ski. Prefiro a minha boia. Grito de longe “ôpa!” pra eles me verem…não quero ser “atropelado”, né? E continuo. O rio nos leva. Passa uma manga ao meu lado. Vamos juntos. Passam folhas, elas tocam meus pés, dizem oi. A percepção se amplia e se afina quando estamos na natureza. Aos poucos os postes de luzes aumentam em número. Estamos chegando à cidade. É bonita a maneira como a luz brilha na água. Uma família brinca no rio, fazendo piadas uns com os outros. Uma menina diz: “Olha o homem descendo de boia!”. Sou eu. E vou chegando, chegando…olha lá a margem. Puxa água pra cá, pra lá…tá raso…pé no chão! Segura! Plié, dobre os joelhos. Quase caio. Chego. Lindo lindo lindo. Uhu! Duas horas de viagem! Salve! Obrigado ao rio Balsas!

Bicicleta de perguntas – Performance

Perguntas que escrevi para serem lidas em uma performance (que não aconteceu) com uma bicicleta com alto- falante no dia da eleição.

  1. Que doenças são transmitidas neste rio?
  2. Você vendeu seu voto nesta eleição? E então, quanto custou? Uma cesta básica ou um emprego? Um grão de soja ou 10 mil reais? Uma caminhonete ou um sapato de salto alto importado?
  3. Que doenças podem ser adquiridas pelo contato com o lixo?
  4. O que você acha sobre a criação do Estado do Maranhão do Sul?
  5. Você salta do alto desta ponte? Você voa?
  6. Quem solta mais foguetes ganha a eleição?
  7. Por que você quer comprar uma caminhonete de pneus e carcaça grande?
  8. Você joga lixo pela janela do ônibus?
  9. Você chama de “gaúcho” quem vem do Sudeste/Sul?
  10. Quando é que você se sente um lixo?
  11. Quando é que você se sente amado (a)?
  12. O que você acha das pessoas que vieram do sul para trabalhar em Balsas?
  13. Você chama de “paraíba” quem vem do Nordeste?
  14. O que você faz com o seu lixo?
  15. Você se chama de quê?
  16. Quais as consequências da colonização francesa, holandesa e portuguesa em São Luís e que se reflete na cidade de Balsas?
  17. Você joga lixo no chão porque vê os outros jogando?
  18. Qual a sua relação com a família Sarney?
  19. Você prefere boné, chapéu de cowboy ou uma peruca?
  20. Olhe para o lado. Quem você vê? Em que essa pessoa se assemelha com você?
  21. O que você acha dos maranhenses que moram no sul do Brasil?
  22. Você já matou alguém antes, durante ou depois de uma eleição? Por que?
  23. Você prefere o Bar do Lão, o Véi do Pancadão ou o Cabaré da alta sociedade local?
  24. Quando é que você tem esperança?
  25. Por que? (pausa 1 min) Mas…me diga uma coisa… por que? (pausa 2 segundos) Por…que? (pausa 10 segundos) Por que? Por que? Por que? (repetição do ciclo – 3 vezes).

Empresa de soja e caminhonetes 4×4 no estacionamento – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Balsas – (4)

Eleição. Loucura. Panfletos. Sujeira. Buzinas. Bebida ilegal no dia da eleição. Compra de votos de última hora.
Boca de urna. Lixo.

Vereadores eleitos em Balsas, Maranhão.
http://www.eleicoes2012.info/candidatos-vereador-balsas-ma/

Prefeito eleito: Rochinha.

Carreata nos últimos dias antes das eleições para prefeito e vereador em Balsas – Foto Tiago Gambogi

Nei é carioca e veio para o Nordeste com seu trailer de lanches
Levaram-no até uma fazenda e o deixaram por lá
Não havia como sair
Só de guincho mesmo
Que demorou um mês
Sem dinheiro, mas com a boa vontade da firma da fazenda
Ele trabalhou lá e fez amigos
Saiu rebocado por um amigo
Saga com um final feliz

Ronáibio saiu da Paraíba e foi pro sul do Brasil
Com a passagem de ônibus, o frango e a farofa, ele disse
Lá ganhou dinheiro
Depois se mudou pra Minas
Conheceu a esposa Cleonice
Hoje é empresário e dono de uma sorveteria / restaurante de sucesso
Também faz decorações para festas e esculturas em arame

Bacaba é um bairro de Balsas
Será aqui que tudo acaba?
Ou começa?

Chuva de madrugada
E continua a chover
A primeira chuva desde que saí de BH

Açucena é o bairro mais pobre aqui
disseram

Conheço o Bar da Magal, talvez o único bar alternativo na cidade
Uma moça sentou-se à mesa
Falava sem parar, contou sua vida inteira
Cansei de ouvir, levantei-me
E fui dançar!

Obra do Artista Servo no muro do Bar da Magal – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

O povo aqui é meio tosco às vezes!
Nada de por favor, obrigado ou até logo
Sentir-se estrangeiro é estranho!

Cidade vazia
Cidade fechada
Madrugada na rodoviária

O travesti diz que meus olhos são bonitos
Eu olho para o outro lado

Na pousada
deu-me o recibo
mas assinou só o primeiro nome
será que vale?
a pessoa só existe quando tem sobrenome?

Em direção ao Tocantins
Ônibus vazio viagem confortável
cochilo aqui e ali descanso

Transamazônica e seus postes de luz em Balsas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Obrigado a todos queridos parceiros e novos amigos: Deusamar, Gypson, Júnior, Sérgio, Ana, Carla, Gustavo, e a todos que me ajudaram em Balsas e participaram das atividades. A mágica só existiu devido ao nosso encontro! A criação é coletiva! Obrigado do fundo do coração! Fiquemos em contato. Um grande abraço e até logo, Tiago.

Artista Servo e obra – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sol se pondo na Rodovia Transamazônica em Balsas – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

– F I M – (Relato Balsas, Maranhão, Brasil)

Oeiras (Piauí)

Matriz de Nossa Senhora da Vitória – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Na casa de Tia Amália depois da dança performance – Foto Carlos Rubem Copyright 2012

Senhor com chapéu bola de futebol – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Cine Teatro Oeiras 1940 na Praça da Bandeira – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Oeiras, Piauí, cidade histórica e primeira capital do Piauí, Rodovia Transamazônica, BR-230
Datas: 20 a 30/9/2012
Duração: 9 dias, 10 noites

Introdução

Oeiras, Piauí, Brasil. Belíssima! Brava, meiga, delicada, forte, tranquila cidade, patrimônio histórico nacional no sertão piauiense. Você conhece Oeiras? Já ouviu falar? Não? Então venha!

Protegida pela padroeira Nossa Senhora da Vitória no Morro do Leme. Plana, ruas largas, igrejas, casarões antigos e grandiosas praças (muitas vezes desertas). Aqui existe a tradição das senhoras que tocam “os bandolins de Oeiras”. Há também a roda de São Gonçalo, o Festival de Cultura, o polêmico poeta José Expedito Rêgo, a escritora Maria do Espírito Santo Rêgo, muitos historiadores, entre outras personalidades da cidade. De dia o sol queima e a gente corre pra sombra. De noite, a lua se enche de neve e faz companhia como quando durante a “Procissão do Fogaréu”, na Semana Santa. E tem também a Procissão dos Passos. Pra onde levam esses passos?

Opostos e contradições. Paradoxos e dialéticas. Verdades e mentiras. Eu, você, três filhos, o cachorro…e ainda o gato e o papagaio? Vai haver conflito nesse casamento? Com quem Oeiras vai se casar?

“O que adianta uma cidade tranquila se a gente não tem dinheiro no bolso? Aí a tranquilidade vai embora e nem dormir a gente consegue! Quero ir embora daqui!”, pondera a moça de pulso firme na padaria. “Já morei em São Paulo! E quero voltar pra lá!”, completa, decidida.

Aqui a Rodovia Transamazônica é um tapete liso feito de asfalto pra caminhões lustrados com cabines acolchoadas e buzinas potentes carregados de especiarias contemporâneas. Será que o ex-Presidente Emílio Garrastazu Médici estaria feliz com o desenvolvimento que a Rodovia Transamazônica trouxe para o Brasil do Norte e Nordeste? O que você define como desenvolvimento?

Oeiras, “capital da fé”! Budista, muçulmana, umbandista? Não, católica principalmente. Algumas igrejas evangélicas, e o simpático e tranquilo Pai de Santo Chico Sena em sua tenda no bairro da Várzea. Ele disse que não foi muito bem recebido por alguns quando chegou em 1969. Sagrado e profano. Branco e preto. Caboclo e índio. Brasil e Portugal.

Ruas largas repletas de motoqueiros malucos sem capacete. “Todo fim de semana tem acidente de moto aqui”, disse Luiz Antônio Carvalho, cinegrafista que trabalha também como motorista da ambulância do SAMU.

O nome da cidade é referência à cidade prima portuguesa. Em Oeiras, a história e a herança portuguesa se mostram na arquitetura, no domínio político por duas oligarquias e em uma formalidade e conservadorismo que permeiam as relações sociais. Atualmente as novelas da Globo são populares também em Portugal. Engraçado, as voltas que a história dá.

Em 1762, Oeiras foi elevada à condição de primeira capital do Estado do Piauí. Sua Majestade, o Imperador determinou. O Alcaide-mor João Pereira Caldas escreveu…e pronto!  Sinto uma sensação desconfortável como no ano 2000, na comemoração dos 500 anos do Brasil. Como lidar com nosso passado colonial? Chego aqui exatamente na semana da comemoração desses 250 anos. Sincronicidade.

Deixemos a polêmica histórica de lado. O tempo que passei em Oeiras foi repleto de grandes encontros, performances em praças públicas, em Colônia do Piauí com Kátia Tapety, na casa de Tia Amália, entrevistas com pessoas de grande generosidade e, sobretudo, muita alegria! Viva! Viva a amizade! Viva Oeiras, o Brasil, a África e Portugal! Viva! Agradecimentos especiais a Pedro Dias de Freitas Jr., Carlos Rubem, Joca Oeiras, Tia Amália e tias, Kátia Tapety, Pai de santo Chico Sena, Aldenora Cavalcante e seu marido, Maurena e Maura, Dona Maria da Roda de São Gonçalo, Marcelino, Dona Petinha e seu filho Amorim, Valdete, Raimunda, Oréstia e todos na Comunidade Quilombola dos Potes, Café Oeiras, Secretaria Municipal de Cultura de Oeiras, Lívio, Rosa, Euclides, Eliane e Lenara na Pousada do Cônego que ajudaram imensamente na pesquisa, nos contatos e com sua hospitalidade. E a todos que de uma maneira ou de outra colaboraram conosco. Cheguei aqui semana passada sem conhecer a cidade nem ninguém…saio com amigos, histórias, danças e encontros! Obrigado! Viva Oeiras! Evoé!

Veja a crônica / artigo do escritor e jornalista Joca Oeiras sobre a passagem do PROJETO TRANS-AMAZÔNIA pela cidade. Obrigado Joca e parabéns pelo trabalho! Grande abraço, Tiago http://www.fnt.org.br/artigos.php?id=1062

Praça da Bandeira em Oeiras e senhor na bicicleta – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Estátua de Nossa Senhora da Vitória no Morro do Leme – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Diário – da chegada à partida

Quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Chegada à tardinha, quase noite. Caminhada pelo centro. Aclimatização do espírito.

Sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Estou na Pousada do Cônego. Fantástica e com ótimo preço. O prédio foi construído pelo filho do Visconde da Parnaíba e é uma casa com características da arquitetura do Século XVIII. Lá se hospedam muitos representantes comerciais, vendedores e técnicos. São os caixeiros-viajantes da era contemporânea. Viajam principalmente pelo Nordeste, durante meses e meses, geralmente sozinhos ou com uma pequena equipe. “Eu rodo no mínimo 500km por dia. Depois que você começa a rodar, tudo fica perto”, disse um rapaz de Teresina.

Rosa em frente ao Hotel Pousada do Cônego – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

De manhã fui até o Museu de Arte Sacra de Oeiras. O excelente historiador e jornalista Pedro Dias de Freitas Jr. monitorou uma visita pela Sala dos Bispos. São tantos! Tempo insuficiente. Volto amanhã de manhã.

No fim da tarde segui em direção ao Morro do Leme, onde se encontra a grande estátua de Nossa Senhora da Vitória. É uma subida muito íngreme, com muitos degraus e um corrimão frágil. No meio da escadaria vejo um rapaz e uma criança. Ele tenta fotografar o menino, mas ele “não para quieto”. Ofereço para fotografá-los juntos. É o Marle e seu filho. Fotografo de vários ângulos e a gente combina de se encontrar lá no topo, lá na “shanta”, como o filho dele diz.

Lá em cima a vista é deslumbrante, 360 graus e alta altitude. Dá pra ver os bairros mais longes, o estádio de futebol e uma queimada bem grande. Onde é? Monto o tripé e começo a filmar. Marle e filho chegam. Ele diz que a cidade é muito tranquila e que” não trocaria aqui por lugar nenhum no mundo”. A gente fotografa mais, dessa vez com a minha câmera, trocamos e-mails e prometo enviar-lhe as fotos. O sol vai descendo, aquela linda grande bola laranja ao longe. A cada 30 segundos ele se esconde mais e mais, e, naquele momento crucial em que toca o horizonte…a gente olha ainda mais atento pra despedir-se e só vê-lo amanhã. Uma laranja que se corta e desaparece. Despedida. Morte do sol. Nascer da lua.

Estátua de Nossa Senhora da Vitória, filho e o pai Marle – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

A grande laranja indo embora – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sábado,22 de setembro de 2012
Segunda visita ao museu. Sala da Prata. Pálio. Sacrários. Matracas. Forma de confeccionar hóstias. Deus do céu. Tudo se parece tanto com Minas Gerais. Sala dos Santos. Um lindo quadro de São Sebastião. Uma imagem do século XVIII. O corpo seminu, flagelado. Beleza, dor e o corpo masculino. Igreja e homossexualidade? Se estivéssemos em Vênus, nossas camisas seriam muito mais alegres e felizes!

Imagem da Sagrada Família

Pomba do Divino Casa do Divino Galeria do Divino
Tudo Divino lindo maravilhoso!
Pé de Deus, onde ele pisou em Oeiras
Pé do Cão – apedrejado
Beijo da Cruz

Como é a sua religiosidade? Em que você acredita? Ou não acredita?

A máquina do relógio da Catedral veio de Liverpool! Portugueses danados! Será que negociaram ouro em troca por essa máquina? God  save…and shave the Queen! (with all the due respect of course dear Majesty).

Todo ano existe o sorteio da casa que irá receber a pomba do Divino. A família prepara um local para oração, promove uma festa, doa um boi e abre uma conta na Caixa Econômica Federal. Será que uma família pobre tem como receber o Divino? Custa caro!

Ao fundo os sinos tocam intermitentemente uma toada diferente. Pedro diz que é o toque fúnebre. Dona Lili, conhecida senhora na cidade, faleceu na semana passada, vítima de acidente de carro na rodovia Transamazônica. “Dona Lili Doce” era muito querida na cidade e Oeiras está triste e de luto. Ela era dona de uma das fábricas de cajuína.

A cajuína aqui no Piauí é muito gostosa! Espero que meus amigos cearenses do Cariri não fiquem com ciúme, mas preferi a cajuína daqui. Ela é mais concentrada e não é gaseificada. Tem um sabor mais distinto, não parece refrigerante. Parece uma bebida de antigamente. E um pouco mais cara que um refrigerante normal. Existem várias fábricas de cajuína nas várias regiões do Piauí. Dona Lili Doce produzia a cajuína aqui em Oeiras. Oração e bênção para a senhora!

Na pousada, converso com o representante de vendas Jorge Luiz, que vende sapatos femininos em todo o Estado do Piauí. Ele me pede ajuda com sua planilha Excell. Diz que a dele não está funcionando e que “precisa fazer novo curso de computação”, pois o que sabe já está defasado. Sentamos à mesa grande de madeira e brincamos com os números. Quantos sapatos ele vendeu, os códigos, cores, tamanhos. Tudo é uma diversão nesta vida quando a gente está por inteiro, né? Eu curto os números e a gente faz tudo agilmente. Ele fica surpreso e diz: “Oxi, já acabou?”. Você fez tão rápido e diferente. Fico lisonjeado, a gente ri, salva o trabalho e envia para o seu chefe. Ele me oferece músicas de forró e MPB que estão no seu notebook. Aceito e copiamos as músicas. Ofereço minhas músicas, ele aceita algumas, mas acha “um pouco diferente”. Tudo bem. Ficamos amigos e companheiros de viagem.

Galeria do Divino – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Casa do Divino em 2012 – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Domingo, 23 de setembro de 2012
Planejo ir até a comunidade quilombola dos Potes, próxima a São João da Varjota. Vou até a rodoviária pra ver se existe algum ônibus que segue até lá. Nada no domingo. Um senhor me oferece um “carretinho” por 50 reais. Eu digo não, digo que pago 10 reais. Ficamos no impasse. Tem uma van às 13horas que cobra 7 reais. Decido esperar pelo horário. Sento-me na cadeira feita de arame e fios de plástico no ponto de mototáxi. Várias pessoas esperam ali por alguma “besta” (transporte alternativo). Uma senhora passa e diz que tem 18 filhos e teve 9 maridos. Agora quer ficar só. Homem dá muito problema. Ela chega perto, fala com cuidado, abaixa a blusa, mostra o seio e diz: “…o último homem enfiou o cabo da espingarda aqui…tá vendo?”. “Poxa, senhora, cuidado!”, digo, “melhor a senhora ficar sozinha então, violência não”. “Tem razão, meu filho”, ela diz e segue rindo.Do outro lado da BR-230 está o posto R. Sá. Caminhões grandes estacionados e um ônibus. Chego perto de um senhor de bigode e puxo conversa. É o “Bradock” ou “Chuck Norris”, ele ri e se apresenta. Tem bigode e rosto parecido com o ator americano dos filmes de ação. Está cozinhando para seus colegas de trabalho um frango com coloral, coentro, cebolinha. Huuuumm! Eita rapá! Ele me convida pra almoçar mas preciso ir até a pousada pra pegar a câmera. Um rapaz alto, moreno e forte se aproxima, com um olhar desconfiado. “Opa!” – esse cumprimento vale em qualquer parte do Brasil, soa como uma topada de bois. Ele é mineiro também. Na verdade todos são mineiros. De Lagoa da Prata. Acreditem. Fica mais receptivo depois que falo que sou mineiro. Vendem bolsas femininas, acessórios, sapatos pelo Nordeste. Ele me mostra uma bolsa rosa: “As mulheres gostam!” Acho engraçado aquele homem grande segurando uma bolsa rosa pequena e dizendo essa frase. Estão na estrada há três meses. “Bradock” é paraibano e cozinha para os mineiros. Daqui a 2 semanas eles “voltam pra casa”. Onde é a casa? Onde está a raiz? Lagoa da Prata? Às vezes me sinto como planta aquática, com uma raiz mas deslocando-se pelas águas.

Bradock Chuck Norris cozinhando frango no domingo – Foto Tiago Gambogi

Converso com Jorge Luiz e faço-lhe uma proposta. Pago sua gasolina e a gente vai junto à comunidade quilombola dos Potes. Ele aceita. Uma aventura com um novo amigo. Transamazônica em direção a Picos, próximo a São João da Varjota. Quente quente quente. Seco seco seco. Estrada reta e cabras correndo no acostamento. A gente para e pede informação. Um senhor magro e queimado de sol diz que “é logo ali” e pede pra ir com a gente. Diz que mora um pouco antes dos “Potes” e que conhece todo mundo ali. É uma boa comunidade, todo mundo é parente.

Estrada, cabras, caminhão e sertão – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

O pequeno carro Uno de Jorge Luiz diminui a velocidade para passar pela lombada que anuncia a Comunidade dos Potes. Logo que saímos do carro, Oréstia – negra, linda e forte, com seus cabelos longos, se aproxima. Eu me apresento, falo sobre a pesquisa. Ela é doce, gentil, tem um brilho nos olhos e um jeito gostoso de falar. Diz que preciso conversar com Raimunda, que é a moradora que faz potes há mais tempo, a representante da comunidade. Oréstia me leva até a loja, que é do outro lado da rodovia, parece longe mas é do outro lado da rua. A rodovia é a rua da comunidade.

Oréstia na Comunidade dos Potes – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Oréstia na loja dos Potes – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Raimunda se aproxima,tem o rosto um pouco fechado, mas é simpática também. Roupa colorida, seus cabelos sendo preparados, ela é receptiva. Às vezes grita com os meninos. Sinto que ela quer fazer o contato, ela é a porta-voz da Comunidade dos Potes.

Raimunda diz que aprendeu a fazer potes de barro com seus pais. E que nos últimos anos essa tradição cresceu e “graças a Deus” e “ao apoio do Governo Lula”, a gente pôde criar nossa loja, nosso ponto de cultura, vender pra outras cidades. “A gente tá na internet”, ela diz. A vida melhorou.

Raimunda na Rodovia Transamazônica – Comunidade dos Potes – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

As crianças se aproximam. Tão lindas e sorridentes. Derretendo-se em alegria. Olhinhos brincalhões. Uma menina se agarra nas minhas pernas. A gente corre e brinca. Quanta vitalidade! Que bonito!

Crianças sorrindo e se derretendo de alegria na Comunidade dos Potes – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

A terra onde a comunidade mora pertence à Diocese de Oeiras e Raimunda diz que é muito grata ao padre. “Ele é um santo, sem ele nós não estaríamos aqui.”

Eles retiram o barro (a argila) de uma terra “lá pra baixo”. “Eles nos dão de graça. Os homens vão lá e trazem o barro, que vem duro. Colocam água e preparam o bolo. Depois a gente modela os potes.”.

Segunda-feira ,24 de setembro de 2012
Entrevisto a simpática Secretária de Cultura, Aldenora Cavalcante, na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, com sede na Casa das 12 Janelas, uma construção típica da arquitetura piauiense do início do século XIX. Material a ser editado e transcrito. Depois da entrevista,  Aldenora me convida para ver uma roda de São Gonçalo nos próximos dias. Conversa com Maurena, que também trabalha na Secretaria.

Maurena Reis e Aldenora Cavalcante na Secretaria de Cultura – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Depois da entrevista, pão com requeijão, café e conversa com Dona Vitória. Morou no Espírito Santo durante muito tempo, disse que era lugar muito bom pra trabalhar e ganhar dinheiro. “Só não trabalha lá quem não quer, aqui no Piauí é mais difícil”, disse. Mas decidiu voltar para sua terra pra levar uma vida mais tranquila. “Já pulei de carro mais de duas vezes…Peguei carona, você acha que é pessoa direita e honesta, mas é homem estuprador. Cidade grande é tudo assim”, completa.

Entrevista com o jornalista e historiador Pedro Dias de Freitas Jr. Material extenso a ser editado e transcrito.

Jornalista e Historiador Pedro Dias de Freitas Jr. – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Converso com Luciano. Ele trabalha em um salão de cabeleireiro onde também pode-se fazer  empréstimos. “Ninguém faz mais empréstimos aqui,  os juros são altíssimos! Olha, este prédio aí em frente. É do dono.”.

“Dizem que Oeiras é tranquila, mas aqui é a mesma bagaceira que em qualquer lugar!” provoca. Ele recomenda que eu acesse o site www.muraldavila.com , que tem notícias de Oeiras, Teresina e outras cidades.  Carlos Lameck Valentim é o jornalista responsável, engajado e muito dinâmico que escreve no site. Infelizmente não tive oportunidade de encontrá-lo, mas entrarei em contato por email.

Performance / Improvisação de Tiago Gambogi na Praça das Vitórias, às 16h30min
Video: Luiz Antônio Carvalho
Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=K5U_6ioC-pk&feature=relmfu

Solenidade e celebração dos 250 anos de elevação da Vila do Mocha à condição de cidade de Oeiras e capital do Piauí, às 17h

Abaixo texto original de 1762, lido durante a solenidade, pelo orador do Instituto Histórico de Oeiras, o jornalista e historiador, Pedro Dias de Freitas Jr.

Ato Régio de Elevação da Vila do Mocha à condição de cidade de Oeiras e capital do Piauí
“João Pereira Caldas, alcaide-mor, comendador de São Mamede de Troviscoso na Ordem de Cristo, coronel de cavalaria, governador da capitania de São José do Piauí. Porquanto havendo-me Sua Majestade mandado erigir em vilas todas as freguesias desta capitania, por carta firmada pela sua real mão, e datada de 19 de junho do ano próximo passado; foi juntamente servidor determinar-me na mesma carta que logo que as ditas vilas fossem estabelecidas, havia por bem criar esta em cidade capital delas. E porquanto, havendo eu concluído a fundação de todas as referidas vilas; e havendo-me presentemente recolhido a esta, se acha ela nos termos de poder principiar a gozar do generosíssimo efeito daquela clementíssima e real resolução. Ordeno, que em observância dela, se fique esta vila conhecendo de hoje em diante por cidade, e denominando-se com o mesmo nome de Oeiras do Piauí, que proximamente lhe impus de novo. E para que assim se fique entendendo, e a todos se faça constante o que Sua Majestade tem determinado a este respeito; mandei lançar este bando ao som de caixas, que se publicará nas praças e nas ruas públicas desta capital, e se fixará nas portas do corpo de guarda, depois de registrado nos livros desta secretaria, e nos da fazenda real, ouvidoria, e câmara. Dado nesta nova cidade de Oeiras do Piauí, sob o meu sinal e sinete de minas armas, aos 24 dias do mês de setembro do ano do nascimento de Cristo de 1762. E eu Joaquim Antunes, secretário do governo desta capitania o fiz. – João Pereira Caldas.”

Foto com membros do Instituto Histórico de Oeiras e personalidades locais durante solenidade 250 anos – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Pedro Dias de Freitas Jr. lê documento durante a solenidade 250 anos Oeiras – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012


Performance / Improvisação no adro da Igreja Matriz de Oeiras
Tiago Gambogi – Aquarela de Oeiras à noite – Performance / Improvisação
Música: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, tocada pela Banda Santa Cecília
Video: Luiz Antônio Carvalho
Data: 24/9/2012. Local: em frente à Igreja Matriz de Oeiras (Piauí, Brasil)
Evento: Solenidade dos 250 anos de Oeiras elevada à condição de cidade e capital do Piauí; Agradecimentos a Pedro Dias de Freitas Jr., Luiz Antônio Carvalho, Instituto Histórico de Oeiras, Socorro Barros, Ary Barroso, Banda Santa Cecília.
Veja o link: http://www.youtube.com/watch?v=rh_URWBdNc8&feature=relmfu

Conversei com Socorro Barros, diretora do Instituto Histórico de Oeiras, e a proposta inicialmente foi realizar uma performance durante a leitura do texto histórico, relacionando-me e interagindo com o texto. No entanto, durante o decorrer dos 4 atos da solenidade, senti que talvez minha performance retirasse o foco da leitura e pensei em fazer algo com a banda de música. Chegando ao adro, perguntei a Socorro e à banda de música. Concordaram. Fomos em frente.

Foi um momento espontâneo, cheio de calor humano. Emocionante. No final da dança Carlos Rubem (o Bill) puxou um “mais um, mais um…” e todos se empolgaram. Fiz mais uma dança, dessa vez com a música “Carinhoso”. Ao final o Bill (Carlos Rubem) aproximou-se e se apresentou. Carlos Rubem é promotor de Justiça e trabalha também na Fundação Nogueira Tapety (www.fnt.org.br) juntamente com o escritor/jornalista/assessor de imprensa Joca Oeiras. Bill me convida para jantar depois da cerimônia. Agradeço, digo que estou cansado e se podemos marcar para amanhã.

– Pausa  –
Oxi! Calor! Estou em Balsas (no Maranhão). 18h. Escrevendo este relato e organizando fotos desde as 9horas da manhã. Dentro do quarto, ventilador ligado e uma pequena janela dentro do banheiro. Difícil respirar e pensar. A lanchonete ao lado tem ventilador que solta água no ar. Ufa! Vou lá! A gente é planta e também precisa de um esguicho!

Como fazer pra digerir tantas experiências? Não faz. Compra pronto?! Dizia minha avó Cila. Aaaahh…comprar pronto não, Cila, quero fazer artesanato, igual à Jeane em Juazeiro. Respirar e absorver. Algumas coisas se processam, outras são eliminadas. Outras recicladas. Processo natural, fábrica, indústria, agronegócio ou plantação em capitania hereditária do período colonial? A pesquisar. Aha!
– Continua –

Terça-feira, 25 de setembro de 2012

Segunda visita à Comunidade dos Potes. Chego à comunidade e Raimunda está triste. Uma criança caiu do cavalo no dia anterior e está em estado grave no hospital em Teresina. A gente se abraça e depois sigo com o Paulo em direção ao local onde eles retiram o barro. É uma caminhada longa sob o sol forte do sertão. Uma das crianças vem com a gente. Aos poucos tudo vai ficando mais silencioso e a gente caminha. É bom. Depois de uns 30 minutos chegamos.

Próximo à comunidade dos Potes para retirada do barro – Foto Tiago Gambogi Copyright

Retornamos à comunidade, trocamos contatos e nos despedimos. Obrigado a todos.

Voltei de carona de caminhão com o Sr. Elizeu Oliveira do Monte, que faz entregas pelo Piauí. Gosta de trabalhar sozinho e na estrada, pois faz seu horário e tem tranquilidade. Amarra a rede em árvore e dorme ao ar livre. Tem 3 filhos que estão estudando na faculdade. Sua mulher já se acostumou à dinâmica errante de seu trabalho.

Sr. Elizeu – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

(O relato segue adiante de maneira mais sucinta.)

Outras atividades do dia:

– Saída com Pedro Dias de Freitas Jr. de moto para vários locais à tarde: Casa do Divino, Museu do Divino, Igreja do Rosário, Pé de Deus, Pé do diabo, Casa da Pólvora, Cemitério antigo, Morro da Cruz.

– Aldenora e seu marido gentilmente organizaram uma apresentação da Roda de São Gonçalo na comunidade dos  Coqueiros, local de origem de seu marido. Logo depois Marcelino, cantor e compositor, toca um repente e outros estilos musicais. Foi lindo! Obrigado!

Na comunidade dos Coqueiros depois da dança de São Gonçalo – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

– Jantar com Bill (Carlos Rubem)e Joca Oeiras. Bill (o Carlos Rubem) é promotor de Justiça e apaixonado por Oeiras e por cultura. Ele é um importante agitador cultural, networker e protetor do patrimônio histórico em Oeiras. Sua atuação é importantíssima para a preservação do centro histórico da cidade. Joca Oeiras é paulista; escritor,jornalista,assessor de imprensa, trabalha na Fundação Nogueira Tapety com Bill. Joca se apaixonou por Oeiras e se mudou para cá. Até mudou de sobrenome, acrescentando o nome da cidade como sobrenome. São bons amigos, interessados, curiosos, brincalhões e me perguntam sobre o projeto e meu trabalho em dança e teatro.

Logo após o jantar, por volta das 21horas, Bill diz: “Quer fazer uma performance na casa de minhas tias? Tia Amália está muito deprimida, quer dançar lá e alegrá-las?”.Digo sim! Foi belíssimo e emocionante! Veja um dos vídeos abaixo:

Performance / Improvisação / Brincante: Tiago Gambogi
Queridos novos amigos e agradecimentos a Tia Amália, Solange Lopes, Rita Campos, Mirista, Alice, Carlos Rubem e Joca Oeiras. Video: Carlos Rubem. Música:” Toda menina baiana”, Gilberto Gil
Data: 25/09/2012, Local: Oeiras, Piauí, Brasil
http://www.youtube.com/watch?v=XKYuPWzPAV4&feature=plcp

Quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Passei o dia escrevendo e editando o relato de Juazeiro do Norte.

Quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Almoço com Bill, Joca Oeiras, Cléia, Teresinha e Arianne.

Kátia Tapety em Colônia do Piauí – Foto2 Copyright Tiago Gambogi

Entrevista com Kátia Tapety e performance. Kátia Tapety é a primeira travesti a se eleger para um cargo político no Brasil. Chegamos a Colônia do Piauí e ela estava fazendo visitas nas casas, trabalhando na campanha eleitoral. Ela nos recebe de braços abertos, sorriso no rosto e pronta para um conversa e entrevista. Conta sobre sua infância, trabalhos que fez durante sua vida, sua atuação no movimento LGBT, seus filhos e o recente filme sobre sua vida “Kátia”, da diretora Karla Holanda. É linda, forte, carismática e engraçada – por inteira em seu corpo e em suas decisões de vida. Ao final da entrevista, eu e Bill sugerimos uma dança/performance em homenagem a Kátia. Ela aceita. Vamos até a praça, mas digo que prefiro uma rua da cidade. Bill pede a um rapaz que tem uma moto com som para campanha eleitoral. Descubro um pen drive na minha bolsa, escolho uma música. Peço a Kátia para ficar próxima ao mandacaru. Penso…figurino? Só de bermuda. Corpo aberto corpo vulnerável. A gente começa, devagar. Obrigado, Kátia. Obrigado, Bill, Joca, o rapaz da moto, o dono das madeiras e do caminhão. Veja abaixo:

Tiago Gambogi e Kátia Tapety em Colônia do Piauí, Brasil
Performance / Improvisação: “Nós não sabemos nada sobre motor de caminhão”
Video: Carlos Rubem
Música: Snow and lights, Explosions in the sky
Data: 27/09/2012
Local: Colônia do Piauí, Piauí, Brasil
Agradecimentos especias a Kátia Tapety, Carlos Rubem e Joca Oeiras.
http://www.youtube.com/watch?v=IbzS1pg_LlU&feature=plcp

Entrevista com Joca Oeiras, no café Oeiras sobre a vida em São Paulo nos anos 70, sua descoberta e mudança para o Piauí. Grande escritor, artista e novo amigo! Obrigado Joca! Veja sua crônica / artigo a passagem do PROJETO TRANS-AMAZÔNIA pela cidade. http://www.fnt.org.br/artigos.php?id=1062

Escritor/Jornalista/Assessor de Imprensa Joca Oeiras no Café Oeiras – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Entrevista e bênção com o Pai de Santo Chico Sena, em sua tenda no bairro da Várzea.

Pai de Santo Chico Sena – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Sábado, 29 de setembro de 2012
Entrevista com Carlos Rubem (Bill) sobre sua atuação na área cultural em Oeiras, a promotoria, a família, a Fundação Nogueira Tapety, a infância. Obrigado, grande Bill!
Visita à casa de Dona Petinha, que toca bandolim aos 90 anos e seu filho Amorim

Carlos Rubem(Bill) – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Dona Petinha e seu filho Amorim tocando uma valsa – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

Conversa com as moças na padaria.

Domingo, 30 de setembro de 2012

Saída às 8 horas da manhã.

Outros acontecimentos:
Hebe Camargo faleceu.
Dona Lili Doce também.
O Atlético Mineiro perdeu para o Flamengo.
Histórias de assombração.
Trânsito perigoso.

Outros encontros:

Neto – do Recife, trabalha para a Oi, e o rapaz de 19 anos. Fazem rapel para instalar serviços de telefonia.
Alunos do Colégio IBENS – Danielle, Ana Caroline e outros.
Jucélia e moças da padaria.
Luiz Antônio Carvalho – cinegrafista. Obrigado ,Luiz!
Maria do Espírito Santo Rêgo – escritora.
Stefano Ferreira – jornalista e escritor.

Obrigado a todos mais uma vez! Viva Oeiras! Evoé! Em direção à Balsas, no Maranhão.

Em direção a Balsas no Maranhão – Foto Tiago Gambogi Copyright 2012

– F i m / Relato Oeiras (Piauí) –

Juazeiro do Norte, Ceará

Alysson Amâncio Companhia de Dança – Jota Júnior Santos, Luciana Araújo, Michele Santos, Lucivânia Lima, Faeina Jorge, Rosilene Diniz, Alyne Souza, Kellyene Maia, Alysson Amâncio, Adriano Modesto, Luciany Maria depois do espetáculo Boa Noite Cinderela – http://www.alyssonamancio.com.br – Foto ©Tiago Gambogi

Cidade 3: Juazeiro do Norte, Ceará. A cidade está próxima à Rodovia Transamazônica (BR-230). Apesar de não estar na rodovia, foi importante conhecê-la, principalmente pela questão da religiosidade e devoção ao Padre Cícero. Descobri muitas outras coisas! Datas: 9/9/2012 a 20/9/2012
Duração: 10 dias, 11 noites

Juazeiro do Norte, quinta-feira, 20 de setembro de 2012, 7h30min, indo em direção à Oeiras (Piauí).

SAÍDA DE JUAZEIRO

Devagar, como que com sono, o ônibus, faz marcha a ré e começa a sair da rodoviária às 7h30min. Meu estômago fica estranho, a respiração se altera e o coração aperta. Lágrima. Como é difícil sair de uma cidade quando se cria uma afetividade ali! Richard Bleasdale (videomaker inglês) me pergunta: “O que é que você procura? O que é que você descobriu?” Amor, carinho, paixão. Toda e qualquer forma de amor – um abraço, uma conversa, uma troca positiva em uma aula de dança, um sorriso de agradecimento no fim do dia, um beijo tórrido, um obrigado, esperança para continuar a viver. Em Cabedelo e Cajazeiras, o amor também estava presente! Talvez o diferencial em Juazeiro do Norte foi o fato de ter me conectado com a coletividade de um grupo. Conhecer e ministrar aulas de dança e teatro físico na Associação Dança Cariri, Alysson Amâncio Companhia de Dança e Universidade Regional do Cariri (URCA), permitiu-me a criação de fortes laços de trabalho e amizade.

Voltemos ao início então…

CHEGADA A JUAZEIRO
Juazeiro do Norte, domingo, 9 de setembro de 2012.

Saio de Cajazeiras (Paraíba) no domingo, aquele dia quieto quando às vezes paira melancolia no ar. Daniel foi generoso e não me cobrou a última diária da pousada….e me levou de carro à rodoviária. Obrigado, amigo!

Juazeiro é maior que Cajazeiras, mas, no domingo, tudo também é quieto. Na rodoviária, o taxista Yoram me ajudou a encontrar uma pousada.”Boa e barata”, eu disse. “Hum, difícil…”, ele completa. Vamos ao centro, mas estão todas cheias, pois cheguei exatamente no período da romaria. Cheguei na hora certa – sincronicidade! Achei um quarto próximo ao estádio de futebol, o “Romeirão”. Simples, mas sou bem-vindo na Rua das Flores.

Estátua do Padre Cícero – Colina do Horto – Foto ©Tiago Gambogi

Juazeiro do Norte, segunda-feira, 10 de setembro de 2012.

Fui à colina do Horto onde se encontra a grande estátua do Padre Cícero. Majestosa, ela abençoa a cidade. De manhã cedo, o ônibus sobe a ladeira, lotado, são os romeiros, como dizem aqui. Linda vista, casas simples, outras mais pobres, alguns terrenos vagos e sujeira, infelizmente. Lá em cima, lojinhas com presentes, terços, fitinhas do Padre Cícero, etc. Os fotógrafos veem minha câmera e querem conversar. Conversei com Carlos, trocamos figurinhas sobre fotografia. Ele fotografa quase todos os dias as pessoas ali próximas à estátua. Imprime as fotos “em material fotográfico original”, diz orgulhoso, lá em seu escritório próximo às lojinhas. Também faz casamentos, e “o que precisar”, disse ele. De longe eu ouço um padre rezando uma missa. Caixas de som em vários postes. A igreja está cheia e a maioria dos fiéis são senhoras com mais de 60 anos. Algumas jovens acompanham as senhoras. O padre termina a missa e pede a contribuição do dízimo.

Foi legal. Talvez precisasse ir mais fundo, ter conhecido um padre ou uma beata ali. Fiquei admirando a vista, filmando e fotografando a estátua de Padre Cícero. Mas tudo bem, eu teria mais tempo e me encontraria com Fátima Pinho nos próximos dias, historiadora e mestra especialista na história de Padre Cícero. Procuraria também acompanhar várias procissões e entrevistar alguns romeiros.

O ponto de ônibus estava lotado e decidi voltar a pé para conhecer a colina, fotografar e caminhar um pouco. Descida íngreme, sol quente, paralelepípedos finos, casas simples coloridas, casas de taipa, passeio irregular, bares, lojas, pessoas trabalhando. Vamos que vamos. Lá embaixo, pergunto a uma senhora como chegar ao centro. É a Dona Francisca, está com sua sombrinha aberta, afinal o sol de meio-dia aqui “não é brincadeira não meu filho”, ela diz. “Você é branquinho, tem que tomar cuidado, viu?”.  Ela me indica o caminho, mas eu vejo que ela está indo pra lá como eu. Diminuo meu ritmo, ofereço para levar suas sacolas e vamos conversando. Dona Francisca tem duas filhas, três netos, um deles é “especial”, ela diz, e estuda na APAE. Todos os dias ela tem que ir até a casa da filha fazer o almoço e cuidar do menino. “Ele já tem 15 anos, mas parece uma criança pequena, tenho que ajudá-lo a fazer tudo: a tomar banho, a amarrar o sapato…ele fala pouco…mas é um doce, muito carinhoso…”, ela fala. A gente caminha uns 30 minutos. Ela diz que trabalhava em uma escola e que era muito bom. “Trabalhar com crianças alimenta a alma da gente”, ela sorri. Dona Francisca é simpática, rosto forte, moreno de sol, as rugas ali presentes, história de vida no seu corpo. Ela é linda! Falo o que estou fazendo aqui e ela diz: “Nossa que trabalho diferente, deve ser difícil…eu não queria não!”. A gente ri. Chegou! Terminal de ônibus. A gente se despede com um abraço. Digo: “Vejo a senhora em Juazeiro!”.

No primeiro dia em uma cidade é bom conhecer o máximo de lugares e pessoas possíveis, para facilitar o processo durante a semana, fica mais fácil assim. Descobrir coisas práticas (banco, restaurante, supermercado, a geografia local), pessoas e organizações que sejam de interesse do projeto. “Vai à luta!”, dizia Cazuza. Então, decidi acelerar o ritmo. Em uma lan house, pesquisei na internet sobre Juazeiro do Norte. Li sobre sua história, a importância de Padre Cícero para a cidade. Na Wikipedia, na parte sobre cultura, li sobre a Alysson Amâncio Companhia de Dança e a Associação Dança Cariri. Veja: www.alyssonamancio.com.br. Foi uma ótima surpresa, pois não sabia da existência de uma companhia de dança na região. E quando acessei seu site vi que realizavam um trabalho de alta qualidade. Imediatamente enviei um email para a companhia me apresentando e oferecendo uma aula de dança contemporânea gratuita. Em 10 minutos, Alysson me ligou no celular. Mostrou-se surpreso quando confirmei que gostaria de ministrar uma aula gratuita. Agradeceu e agendamos para o próximo dia, terça-feira, às 19horas.

Fiquei feliz! Gosto de ministrar aulas e oficinas. Às vezes tenho um pouco de dificuldade em ministrar cursos de longa duração, devido aos altos e baixos do processo, saídas e faltas de alunos. Mas cursos intensivos são frutíferos para mim – explosivos, vitais, felizes! Saí alegre da lan house e pensei…vou cortar o cabelo pra ficar mais leve…pra poder dançar e voar! E lá fui eu. Fiz mil e uma coisas: mercado central, rodoviária, comprar cabo usb sobressalente, verificar ônibus para a próxima cidade, entre outras. E um suco para hidratar, porque aqui o suor pinga só de ficarmos de pé!

Procissão Segunda-feira – Foto ©Tiago Gambogi

Às 17:50 fui em direção ao Colégio de Misericórdia para a saída da procissão. Chego tímido. Uma senhora me dá uma bandeirinha de Nossa Senhora das Dores e entro na pequena sala onde uma missa é celebrada. O padre abençoa todos e saímos para a rua. Vários fiéis seguram a imagem, as senhoras carregam velas. Algumas têm um véu sobre o rosto. A presença de uma banda, uma fanfarra esperando, todos vestidos a caráter. Na esquina, um trio elétrico. Não toca axé da Bahia…é uma grande plataforma para oração.

A procissão segue. É emocionante. Orações, cantos, a banda toca música militar e também canções antigas. A vibração é forte. Seguimos em direção à Igreja Matriz. A missa é celebrada. Fotografo e filmo tudo lá de cima, junto aos padres e aos outros fotógrafos. Bandeirinhas ao alto, todos cantam. Num momento de silêncio, as pessoas com os olhos fechados, vejo uma pequena lágrima no rosto de uma romeira.

Procissão Segunda-feira – Foto2 ©Tiago Gambogi

Depois da procissão vi uma moça vendendo artesanato à distância. É a Jeane! Ela chegou perto, conversamos, contou que já morou na Noruega, que joga capoeira. Comprei uma pulseirinha que ela fez. Jeane tem um sorriso lindo, uma abertura para o mundo que encanta. Disse que está apaixonada e vai mudar com seu amor para Porto de Galinhas. Achei bonito sua história. A gente trocou e-mails. Uma semana depois ministraria uma terceira aula na Associação Dança Cariri e Jeane estaria lá, sua primeira aula de dança contemporânea na vida. E depois ficaria amiga dos bailarinos. Bela mágica dos encontros!

Para quem está armado…a solução é desarmar, né?  Afinal, a vida não é uma guerra, hum? Viva o clown! Matuto é o que vem do mato, disse Andrea, moça namoradeira na janela em Cajazeiras. Sertanejo é o que vem do sertão, disse o seu Luiz Brito em cima do jegue. E o viajante? “De onde você é? Você é filho de quem? O que é que você veio fazer aqui?” Como Cesar Volpe e eu descobrimos em São Tiago, Minas Gerais, durante o Projeto Nazdraví em 1999, a única resposta é: “Somos do mundo, somos filhos de Deus e viemos aqui para ser felizes!”

Rua São Paulo – Foto ©Tiago Gambogi

Impressões

Juazeiro tem ruas longas e retas na sua área central.
De um ponto se encontra a Igreja Matriz.
No ponto oposto da Rua São Paulo, se encontram uma igreja evangélica e um cabaré.
Lado a lado convivem amigavelmente:
“…as meninas do cabaré frequentam a Igreja Evangélica…”, disse-me o pastor.
“Elas querem mudar de vida”, ele afirmou com certeza.
“Sou de Pernambuco, cheguei aqui semana passada”, disse-me a moça na porta do cabaré. Coincidentemente, nas suas costas ela tinha uma tatuagem, lia-se: “Deus”.Junto ao meio-fio uma água malcheirosa e escura corre, “água sebosa…coisas boiando, o prefeito deveria fazer alguma coisa”, disse uma senhora.
É esgoto a céu aberto.
Será essa água o que temos em comum? É ela que nos une?

Água sebosa – Rua São Pedro – Foto ©Tiago Gambogi

Várias ruas com nomes de santos:
Rua São Paulo, Rua São Pedro, Rua Santa Luzia.
Quem não é santo ainda está em processo de beatificação:
Rua Padre Cícero.
Ela vai longe, até a cidade do Crato.

“Um homem me disse que estava viajando, que foi para o Crato!”, disse Jeane, rindo.
“É o lugar mais longe que ele já foi”, ela disse. O Crato é a cidade vizinha, a 25 minutos daqui.

De dia lojas e movimento de pessoas, parece o centro de Belo Horizonte.
De noite tudo vazio, a não ser por algumas lanchonetes que servem pizza e sanduíches.

Em várias praças, equipamento para as pessoas se exercitarem.
É a chamada “academia popular”. Acho que dá popularidade ao prefeito.

Vi uma senhora de uns 70 anos se exercitando com muita vontade.
Legal!

Várias pessoas pedem cajuína no bar, peço também, sem saber o que é.
No Ceará, é um refrigerante gaseificado de caju, no Piauí, é mais concentrada, mas não gaseificada, disseram-me. Caetano Veloso escreveu a sua música “Cajuína” logo após a morte de Torquato Neto, em 1972, ano em que a Transamazônica foi inaugurada. Veja a estória por detrás da música no blog Passeando pelo Cotidiano: http://passeandopelocotidiano.blogspot.com.br/2011/05/historia-por-tras-da-musica-cajuina.html Aí vem a pergunta ontológica:“Existirmos a que será que se destina?” Caetano Veloso, na música “Cajuína”. E eu te pergunto: O que é que te move adiante?

Lindo dia. Mil atividades e novas conexões. Plantando as sementes para a semana. Senti-me vivo – carequinha conectada com os céus. Especialmente à noite na procissão – a banda, a música, a fé. Tanta gente simples, e cheia de fé. Há algo de bom ali, mesmo para quem não é religioso ou não acredita em Deus. Mas eu acredito sim. Algo existe, com certeza. E eu ali, caminhando, vivendo, sendo um romeiro videomaker, lado a lado com os outros – junto e imerso.

Juazeiro do Norte, terça-feira, 11 de setembro de 2012.

Acordar cedo. Corpo: yoga tai-chi no quarto apertado. Reconectar com a linguagem do corpo e preparar a aula de dança. Tensões do corpo. Alongar. Fortalecer. Gemer. Cansaço.

Fui ao centro. Comprei uma máquina de lavar bem barata na casa de material de construção – 30 centavos! É um plug, uma tampa pro ralo da pia. Viva a tecnologia das mãos, dos plugs e das pias!

Entrada da Associação Dança Cariri – Foto ©Jota Júnior Santos

Aula na Associação Dança Cariri
A aula foi fantástica! Sala cheia – profissionais e também estudantes mais jovens, idades diferentes. Preparei uma aula técnica de dança contemporânea com alguns exercícios e jogos teatrais entre cada sequência coreográfica para animar e desestabilizar todos. Deu certo! Trabalhamos bastante! Que receptividade, interesse e empenho eles têm! Emocionei-me! Valeu demais! Depois da aula houve uma conversa quando me apresentei e falei sobre o Projeto Trans-Amazônia. Também perguntei aos presentes se conheciam pessoas que poderiam colaborar comigo no que se refere à história da cidade. Silvani, uma das bailarinas, aproximou-se e me passou o contato de sua companheira Fátima Pinho, historiadora com mestrado sobre a religiosidade popular e o Padre Cícero. Estudantes da URCA (Universidade Regional do Cariri) se interessaram por meu trabalho e perguntaram se teria interesse em ministrar uma oficina para eles no próximo dia. Disse sim!

Aula na Associação Dança Cariri – Foto1 ©Jota Júnior Santos

Aula na Associação Dança Cariri – Foto2 ©Jota Júnior Santos

Juazeiro do Norte, quarta-feira, 12 de setembro de 2012.

14h – 17.30hs
Oficina de Teatro Físico Universidade Regional do Cariri (URCA)
Curso Licenciatura em Teatro

Belíssima tarde! Veja o relato de Michele Santos, fotos de Maria e Aldenir:
http://michele-ssantos.tumblr.com/post/31776750171/oficina-de-teatro-fisico-com-tiago-gambogi-pibid

Participantes: Michele, Sâmia, Pertrousson, Wiarlley, David, Jessica, Bárbara, Leandra, Cleílson, Jamal, Max, Daquini, Luíza, Angra Sílvia.

Oficina de Teatro Físico na Universidade Regional do Cariri – Fotos ©Maria & Aldenir

Oficina de Teatro Físico na Universidade Regional do Cariri – Foto2 ©Maria & Aldenir

Oficina de Teatro Físico na Universidade Regional do Cariri – Foto3 ©Maria & Aldenir


20h – 21h15min
Aula de dança contemporânea para os bailarinos profissionais da Alysson Amâncio Companhia de Dança.

Na mesa, no chão, no carro, no banheiro ou na cachoeira

Homem de bigode
Mulher de salto alto
palitam os dentes depois de comerem
bode na hora do almoço

“Gina”, ele diz
“Loira, ela diz.
Natural?
Estrangeira?
Gaúcha?
De onde ela é? Ele diz.
“Desde 1947”, está escrito, ela diz.
Então…ela tem…67 anos!
Impossível, pois não parece!
“Seu bobo…é a foto da marca da caixa de palitos de dente na mesa”, ela diz.
“Estranho nome e muito branquinha a moça”, ele completa.

Dance
love
let it come
here not there
there? Where? Here?
Let your heart open
Just be breath be still move now wait listen move fast as fast as you can explode give it all give more touch touch
Love unconditionally is it possible? How? Howling in the middle of the night! I don’t know, you know you f***ing idiot! It’s all happening! Keep going dear! Again! Stop go to sleep now be in your body (where else could I be? A spirit?) you me they it the cat has those beautiful blue eyes just like yours let it come what is coming? Not sure but no buts just…
Just
Just be
Breathe
Just come
Here
Do you feel it?
What?!
Dance?
Love!

Padre Cícero
Atuação com importância religiosa, política e social para Juazeiro
Acabou com uso abusivo de álcool, fez o milagre da hóstia, cuidou da beata, criou a cidade de Juazeiro, foi prefeito.
A Igreja o penalizou por ele continuar cuidando da beata e não esclarecer sobre o milagre. Aventurou-se fortemente na política.
“E também na guerra!” Jeane disse. “Era um estrategista de guerra”.
“Abençoava os soldados antes de saírem para a guerra contra o Crato”.
Aí surgiu Juazeiro do Norte!

Sérgio – Performance na Praça Padre Cícero – Foto ©Jota Júnior Santos

Juazeiro do Norte, quinta-feira, 13 de setembro de 2012.

16h30min
Performance / improvisação de Tiago Gambogi,apresentando o “clown” Sérgio, seu alter ego, na Praça Padre Cícero
Filmagem: Jota Júnior Santos
Apoio: Associação Dança Cariri e Alysson Amâncio Companhia de Dança
Duração: 12min

Proposta: habitar o movimentado espaço público na Praça Padre Cícero no centro de Juazeiro do Norte em um estado de curiosidade e inocência com meu alter ego Sérgio. A performance tem uma estrutura de 5 momentos, instruções para composição coreográfica em tempo real e um trajeto predefinido na praça:

  1. Começar devagar. Ver os elementos do espaço. Colocar o corpo de Sérgio nesse espaço como transeunte. Utilizar gestos cotidianos. Aos poucos aumentar seu grau de interesse pelas coisas e permitir que o movimento se modifique.
  2. Espaço escolhido: grama com círculo e estátua no meio. Registrar os elementos do espaço e “traduzir” em movimento sua forma, corpo, textura. Copiar o movimento das pessoas ao redor. Interagir com os elementos do espaço.
  3. Espaço escolhido: bancos e área próxima ao relógio. Dançar três palavras que remetem à minha experiência em Juazeiro: sol, romaria, receptividade. Ver o público. Talvez interagir.
  4. Sair da praça utilizando as imagens do caminho da pousada até o centro descendo pela Rua São Paulo. Explorar o movimento em deslocamento.
  5. Terminar a performance em frente ao carrinho do homem que vende facas que cortam tudo ou quase tudo.

Sobre a experiência da performance: gostei! Foi positivo. Sérgio foi bem discreto e seu estado partiu da situação do cotidiano de pedestre e se desdobrou em movimento abstrato. No momento próximo ao relógio, talvez eu pudesse ter desenvolvido mais o movimento.  Interagi com o lixo no chão e isso virou o mote principal. Queria ter visto mais o movimento. Mais tempo ali talvez. O que você acha? Veja o link no youtube: (12 min) e comente. Obrigado!

http://www.youtube.com/watch?v=MghuJwNgzVM&feature=colike
(video talvez demore a carregar, devido ao tamanho do arquivo e ausência de software para editá-lo).

20hs Ensaio geral do espetáculo “Boa noite Cinderela”
E conversa / feedback após.

Professora Fátima Pinho – Mestra em Religiosidade Popular e o Padre Cícero – Foto ©Tiago Gambogi

Juazeiro do Norte, sexta-feira, 14 de setembro de 2012.
Bela entrevista com Fátima Pinho, historiadora. O material é extenso e necessita de edição em vídeo. Assim que terminamos a entrevista, saímos junto para ver a procissão dos carros. Veja as fotos! Belíssimo, emocionante!

Procissão dos carros – bombons pelas janelas – Foto ©Tiago Gambogi

Procissão dos ônibus e carros – Nossa Senhora das Dores – Foto ©Tiago Gambogi

Criança no ônibus durante a procissão dos carros – Foto © Tiago Gambogi

Em direção ao Crato para assistir “Boa Noite Cinderela – Alysson Amâncio Companhia de Dança”

Pego uma topique, van de transporte alternativo, em direção ao Crato para assistir ao espetáculo “Boa noite Cinderela”, da Alysson Amâncio Companhia de Dança no Teatro do SESC no Crato.  A topique está cheia, e vai enchendo mais, até virar “lata de sardinha”, brincou a moça em pé ao meu lado. Ofereço-me para carregar sua bolsa no colo. Um rapaz me pede para levar a sua. E depois outra moça. De repente tenho três bolsas, que quase tocam meu queixo. Mas é divertido, não me importo. “Essa topique pára em tudo quanto é buraco…é só dar sinal que eles param. Se você estiver do outro lado da rua e mostrar seu dinheiro, eles fazem o retorno e te pegam!”. Todos riem. “Olha, se eu desmaiar, vou ter que esperar a próxima parada, pois nem lugar pra cair aqui tem!”. E aí seguimos, eles me dizem onde é o teatro do SESC e eu desço. Paro em um bar, peço uma cajuína. Um menino vem e me diz: “Você fala diferente! Você é de onde?”.  A gente se olha e ri.” Uai…cê acha que eu sô de onde?” Mesmo assim ele não sabe.

Boa noite Cinderela é um espetáculo que fala das relações amorosas, da afetividade no mundo contemporâneo. É dançado por um elenco forte e envolvente composto por 7 mulheres e 1 homem. É sobretudo um olhar sobre a  mulher, o amor romântico e a idealização do sexo masculino. Quem é o príncipe encantado?  Alysson Amâncio brinca com os estereótipos e papéis de cada sexo construindo uma dramaturgia que nos seduz, faz rir e depois, quase que, cruelmente, nos deixa sem chão e sem esperança.  Para onde seguir quando o que acreditávamos já não existe mais? A carruagem de cinderela desapareceu? A coreografia usa de um gestual preciso, detalhado e tem sucesso em criar uma assinatura coreográfica ao longo do trabalho. Em alguns momentos Alysson se utiliza de um crescendo na música para criar um clímax e aumento de intensidade na cena. É bonito, dramático. Talvez isso pudesse ser intensificado ainda mais, com uma movimentação ainda mais rápida, produzindo maior envolvimento, mais “páthos”. Mas tudo bem, esse é o meu olhar. O espetáculo é belo, sensual, engraçado, cruel. Utiliza texto falado em alguns momentos. Saio do espetáculo sentindo algo incômodo. Isso é bom. Acertou em cheio! Parabéns a Alysson e à companhia.

Ficha Técnica
Direção, dramaturgia e coreografia: Alysson Amâncio
Interpretes-criadores: Adriano Modesto, Alyne Souza, Faeina Jorge, Kelyenne Maia, Luciana Araújo, Lucivânia Lima, Michele santos, Rosilene Diniz
Pesquisa musical, cabelo e maquiagem: Alyne Sousa e Alysson Amâncio
Figurino: Ariane Morais
Ensaiadora: Luciana Araújo
Iluminação: Luiz Renato
Assistente de iluminação e operação de luz: Raimundo Lopes
Assessoria teatral: Duilio Cunha
Arte: Jota Junior
Produção: Jota Junior, Luciany Maria, Nilo Junior
Fotografia: Diego Linard

Depois do espetáculo fomos a um bar próximo. Atores do Grupo Ninho de Teatro e amigos artistas vêm conversar com o pessoal. De lá saímos pela cidade. Depois vamos a uma chácara grande, onde vários rapazes estavam sozinhos. Festa estranha : música alta, todos meio bêbados e sem falar nada. Um rapaz estava dormindo em um quarto, com uma camisinha em suas mãos. Insólito.

Fomos então para a “Nascente”.

Nascer de novo na Nascente

Chegamos todos na caminhonete de Adriano.
A nascente é uma pequena cachoeira-queda d’água na cidade do Crato, no Ceará.
Frio por lá, difícil de acreditar e a água também.

Adoro cachoeiras, cresci com elas em Minas.
Impossível não entrar na nascente.

Quero nascer de novo!

E lá vou eu.
Nu, na madrugada
caminhando com cuidado em cima das pedras
até entrar no véu da nascente.
Quem é esta noiva?

Aaah…que bom…que delícia…
Água pelo topo da cabeça entra dentro da gente.
“Lavando a alma”, como dizia minha Vó Cila, e saindo pelos pés.
Aaah…que presente!

O frio acorda e dá atenção.
A alegria aquece o coração.

Fico ali parado, com frio, alegre e nu
Secando-me ao vento.

Visto a bermuda, meu corpo quer dançar.

Tem areia no chão
Dedos abertos tateando
as pernas em movimentos de cavalo
pélvis da qual esgueira a cauda de bicho
Dobrando os joelhos
Deslocando-me pelo espaço aberto e entre as árvores
Como ginga de capoeira que se multiplica em movimentos

Todo mundo ali perto
eu estava comigo naquele momento

Faeina se aproxima
a gente se olha
Diz: “Que coisa boa, eu quero também!”

A gente dança dança
e dança mais ainda

Como dois bichos tentando descobrir o movimento um do outro
Descobrir-se através da descoberta do outro?
Ouvindo, respondendo, copiando e propondo

Abandonando-se

Corpo inspiração
sentir
nascente
Contatos, carregadas, giros
deslizes

Derretendo-se

cabelos soltos
coluna flexível
em arco

Arco-íris irradiando do topo da cabeça
Dança de salão a céu
aberto de estrelas

Entrega nos braços pernas costas cabeça coração
Até cairmos
Opa!

Levantar e continuar
Como é bom que coisa boa!

A gente suspira a gente ri a gente compartilha
Será que a gente nasce só uma vez?
Quando é que a gente nasce de novo?
Hoje!

E depois todos nós subimos devagarinho o pequeno barranco de volta à caminhonete de Adriano
Faeina escorrega
Opa! Cuidado moça bonita!

Todos subimos na pequena caminhonete

Todos lá atrás e em pé
Um pequeno pau-de-arara
Ah…não pode não…

Mas o vento…o vento…
A lua…
…as estrelas…
Será que existe perigo em um sonho bom?
Ah…
Ah…
Suspirar…

Estava frio e eu me deitei ali na carroceria da caminhonete
Via as estrelas
Michelle disse a Cleílson:
“Veste essa blusa rapaz! Você prefere ficar ridículo ou ficar com frio?”
Ele olhou pra ela, deu um sorriso maroto e ao mesmo tempo reprovador
Mas vestiu a blusa, agradecido, ficou em silêncio e…aquecido.

A caminhonete caminhota a diante
É longe, vamos que vamos
Ventanear de madrugada
Em silêncio a gente fica ali olhando o céu
Querendo ser estrela

E sim!
Nascer de novo na nascente!

Lembrete: Pesquisar sobre o poeta Patativa do Assaré

Juazeiro do Norte, sábado, 15 de setembro de 2012.
Procissão final – Nossa Senhora das Dores
As imagens dizem tudo. Veja as fotos…

Duas senhoras durante a procissão de Sábado – Foto © Tiago Gambogi

Romeira reza terço antes da celebração da missa – Procissão de Sábado – Foto ©Tiago Gambogi

Missa Sábado – Foto ©Tiago Gambogi


Juazeiro do Norte, domingo, 16 de setembro de 2012.
Descansar. Organizar fotos e vídeos.

Juazeiro do Norte, segunda-feira, 17 de setembro de 2012.
Visita à fábrica de refrigerantes Cajuína

Fábrica da Cajuína em Juazeiro do Norte – Foto ©Tiago Gambogi

Raio X da Cajuína – Foto ©Tiago Gambogi

Juazeiro do Norte, terça-feira, 18 de setembro de 2012.

– 2ª visita à fábrica de refrigerantes Cajuína

– 3ª aula na Alysson Companhia de Dança

Carga horária total: 10horas (3 aulas na Associação Dança Cariri, 1 oficina na URCA, 1 ensaio, 1 espetáculo)

Despedida com amigos. Lindo lindo! Obrigado a todos!

Juazeiro do Norte, terça-feira, 18 de setembro 2012
Perdi o ônibus. Ok, ainda há coisas a resolver. Fui no próximo dia logo cedo.

Observações / descobertas em 3 semanas de viagem

  1. Certeza: a vida é amor.
  2. Existe sempre um amigo. Existe segurança.
  3. Doar é o único caminho adiante.
  4. Estar aberto: conectar, conviver, encontrar.
  5. O Nordeste brasileiro realmente é muito quente!
  6. O que a gente visualiza acontece. Se não aconteceu, ainda irá acontecer ou de alguma outra forma. Ou talvez não.
  7. Aqui há muitas motos. O trânsito é caótico. Algumas andam na contramão.
  8. A segurança está relacionada a como administramos nossa presença no tempo e espaço – medo ou coragem? Olhos que veem ou mente que projeta nossas loucuras nos outros? Será que tudo é projeção?
  9. Tudo tem um cheiro. O caju, a pele suada do corpo que dança, a água que corre na Rua São Paulo.
  10. Fale alto e com segurança. Veja o que há de bom nas pessoas. Não ignore a negatividade de nada, mas veja e fale sempre sobre as coisas positivas inicialmente.
  11. A arte popular e a arte contemporânea podem chegar a qualquer lugar.
  12. Eu chego sozinho. Faço amigos. Saio sozinho. Tudo recomeça na próxima cidade. Tudo lindo. Tudo diferente. Às vezes cansa, mas é um presente estar lidando com essa forma do aqui e agora.
  13. Solidão. Solitário. Sozinho. São três palavras bem diferentes.
  14. A pele se bronzeia e o corpo pode assumir três tonalidades.
  15. A pronúncia do “d” e do “t” no Nordeste é o grande diferencial do sotaque. É charmoso! Eles dizem que quem é do sul fala chiando.

Outros encontros:

Francisco – homem da pousada, cara fechada no primeiro dia, mas aos poucos fomos criando amizade e rimos bastante.

Yoram – taxista, nome inconfundível, eu o vi na rodoviária quando estava saindo de Juazeiro.

Jota Júnior Santos – produtor, diretor da Associação Dança Cariri, estudante de Artes Visuais na URCA. Obrigado pela hospedagem e conversas no último dia, amigo!

Luciany Maria – produtora, tesoureira da Associação Dança Cariri. Obrigado pelo carinho e companhia!

Integrantes da Companhia Alysson Amâncio – Adriano Modesto, Alyne Souza, Faeina Jorge, Kelyenne Maia, Luciana Araújo, Lucivânia Lima, Michele Santos, Rosilene Diniz.

Alunos de dança na Associação Dança Cariri.

Alunos de teatro na Universidade Regional do Cariri

Johnny – músico peruano da banda Los Muchachos, mora em Recife (PE) e veio tocar em Juazeiro e vender seus CDs na Praça Padre Cícero.

Pessoal da pousada – Sônia, Maria, Seu Mauro.

Elder – vendedor “caixeiro viajante”, originário de Oeiras (PI), minha próxima cidade.

Luciany, Ruth, Seu Tico, Luciene – na fábrica do refrigerante Cajuína / São Geraldo.

Dinho – artista plástico.

E vou seguindo pela Rodovia Transamazônica Brasilzão afora em direção a Oeiras, Piauí. Obrigado a Juazeiro do Norte. Ao Padre Cícero. Obrigado a todos que me receberam tão bem e por sua generosidade – Alysson, Luciany e seus pais, Jota Júnior, Faeina, Michele, Rosilene, Adriano, Alyne, Kelyenne, Luciana, Lucivânia, Sâmia, Cleílson, Fátima Pinho, o pessoal da Universidade, aos entrevistados, Sônia, Maria e Seu Mauro,– Obrigado! Voltarei em breve. Continuaremos os cursos e vocês verão o espetáculo Trans-Amazônia! Grande beijo abraço carinho amor paixão! Dá vontade de escrever mais…está longo…mas fico por aqui…Tiago

Despedida com meus novos amigos em Juazeiro – Michele, Faeina, Jota Júnior, Jeane, eu, Kellyene – obrigado! Foto ©Bar do Zé

Início do Projeto

O projeto Trans-Amazônia inicia-se no dia 30 de agosto de 2012 em Cabedelo, Paraíba, Brasil, no Km 0 da Rodovia Transamazônica (BR-230), 40 anos depois de sua inauguração.

Visite as página: “Diário de criação – Recente” e “Diário de Criação 30/8 á 8/9” para ver as informações sobre a viagem e o processo artístico. Obrigado e boa viagem!

Mapa descritivo da BR-230 em relação as outras rodovias brasileiras. Origem – Ministério dos Transportes

Projeto Trans-Amazônia – Jornal Estado de Minas – 30 Agosto 2012 – por Carolina Braga