Diário de criação 30/8 à 8/9

Sérgio de bigode em Cajazeiras (PB) – Foto ©Tiago Gambogi

Cidade 2: Cajazeiras, Paraíba, Km 498 (aprox..) , RodoviaTransamazônica, BR-230
PARTE 2 – Datas: 6/9/2012 – 9/9/2012 – Duração parte 2: 4 dias
Duração completa: 7 dias

Domingo, 9 de setembro de 2012

Cajazeiras – cidade cheia de vida, bem organizada. Fiquei aqui mais tempo do que o planejado – os laços foram sendo criados e as estórias aparecendo. Muito obrigado a Daniel, Ana Cláudia, Gabriel, Andrea pela sua hospitalidade. Obrigado especialmente ao Daniel por compartilhar seu trabalho no MCCE (Movimento Contra a Corrupção Eleitoral).

Feira do Rolo – onde se faz qualquer negócio – Foto ©Tiago Gambogi

Vendedor de roçadeira e outras ferramentas no mercado de Sábado – Foto ©Tiago Gambogi

Venda e troca de animais e outras coisas ao lado do cemitério – Foto ©Tiago Gambogi

Sábado, 8 de setembro de 2012

Manhã: fotos e filmagens no mercado e feiras de sábado, além da feira do rolo ,onde as pessoas vendem e trocam qualquer coisa.

Tarde: entrevista com Daniel e Ana Cláudia. Demorou mais do que o esperado, tive que ficar mais uma noite na cidade e pegar o ônibus no próximo dia para Juazeiro do Norte.

Noite: Grande festa na cidade com a dupla sertaneja Vitor e Léo.

Comício em Baixio (Ceará) Foto ©Tiago Gambogi

Sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Comício em Baixio, Ceará

Sigo com Daniel, sua esposa Ana Cláudia e seu filho Gabriel para Baixio, Ceará, onde acontecerá o comício de um dos candidatos.

Cidade movimentada. Todos de vermelho em suas motos e carros em passeata pelas ruas. Buzinas, apitos, foguetes. Uau! Uma loucura! A cidade toda está tomada. Daniel está lá para verificar se a manifestação segue corretamente as regras da campanha política.

Depois de longa carreata, a multidão se agrega junta a um palco montado em uma praça. Todos os candidatos a vereador se apresentam. Vários deles dizem que são da cidade e que “devemos apoiar quem é daqui quando existe a mão-de- obra adequada e somente trazer os forasteiros quando não tivermos a mão-de-obra aqui…”. Ponto válido, apoiar e valorizar o trabalhador local.

O comício segue em frente. Bandeiras no ar, música com refrão: repetição , insistência sonora. As pessoas cantam e dançam e se entregam àquele momento.

Depois de longa espera, o candidato vem ao palanque e discursa. Hoje é seu aniversário. Todos cantam parabéns. Imagem e momento potente. Agregar o lado pessoal ao político (a candidatura e a data comemorativa do dia 7 de setembro) cria uma empatia imbatível. Ele discursa, e o primeiro elemento que aborda é uma questão contra o outro candidato.

O comício termina. Vamos à casa dos pais de Ana Cláudia. Eles nos oferecem uma torta e refrigerante. Obrigado.

Comício em Baixio (Ceará), caminhada – Foto ©Tiago Gambogi

Público ouve candidato em Baixio (Ceará) – Foto ©Tiago Gambogi

Quinta-feira 6 de setembro de 2012 em Cajazeiras
Relato baseado em fatos reais, com elementos de ficção. Os nomes das pessoas são fictícios.

Morte?! Ou independência ?!

Na véspera do feriadão, dia 7 de setembro, todo mundo quer se libertar. Só assim para poder bradar de peito aberto: “Independência ou morte!” . Noite quente nos bares. A sinuca está cheia, só homens jogam ali. Mesas e cadeiras na calçada e na rua. Cantos religiosos ecoam da Igreja Católica e se misturam ao som dos carros que tocam forró, pagode, Odair José…(não tocam funk carioca!). Encontro um conhecido e sentamos na mesma mesa. Veio beber uma cerveja para ficar perto da garçonete, pois já tinha “rolado uns pega mais cedo” e ele queria vê-la. O outro homem do lado diz: “homem é tudo safado…é muita tentação…olha essa morena…”. Do outro lado, mais distante, três mulheres. Depois de um tempo, uma delas se aproxima e pergunta nossos nomes. Vejo que na verdade é um menino, magro, bonito, feminino, com uns 15 anos.  Na minha mesa e ao redor, os homens estão todos falando ao celular. Ah…decidi…pulei pra outra mesa. As mulheres riem, são jovens e sorridentes. A gente conversa, bebe uma cerveja. Amanda teve um filho aos 13 anos e disse que a mãe é que cuida. Ela quer é se divertir. Patrícia, loira, risonha, convida pra ir ao forró. É animado e vai até as 4 da manhã! Sansão, o menino, que diz para chamá-lo de Jennifer, é muito gentil, começa a fumar um cigarro e a dançar na rua. Eu fico ali, conversando, a energia flui de forma positiva. Elas me perguntam de onde sou, o que faço aqui, dizem que sou meio diferente e estranho. A gente ri. “Todo mundo é estranho, de alguma forma”, digo. Depois de algum tempo, uma carona aparece e todos nós, oito pessoas, entramos em um carro, amontoados, uns no colo dos outros. O carro vai saindo da cidade, passando por bairros que nunca vi e por ruas de terra. O motorista, com uns 50 anos, conta um caso de alguém conhecido, todos riem. Depois falam mal de outra pessoa, todos reclamam. Uma catarse coletiva. No banco da frente, homem e mulher se beijam. No banco de trás duas mulheres se beijam. Lá longe, uma casa, quase que uma simples cabana sozinha à beira da estrada. Ouve-se o forró lá de longe. Estacionamos. Pegamos uma mesa. “Paga uma cerveja pra gente!”, Amanda me pede, mas ao mesmo tempo ela demanda. Lá vou eu cruzando a cabana cheia, todos dançando. A música é absurdamente alta, talvez 16m² de caixas de som em uma pequena estrutura ao lado. A polícia chega devagar com seu pisca-pisca vermelho ligado em caminhonete de belo porte. As pessoas bebem cerveja, pinga com coca cola, vodka…mas me parece que beber uísque é que é o quente por aqui. Quem tem mais dinheiro traz uma garrafa cheia e fica ali bebendo. E quanto mais álcool, mais as pessoas dançam. E se beijam. E se agarram. As mãos passeando por todo o corpo. Pela primeira vez tocam funk carioca. E aí…a dança se transforma – completamente sexual. Há uma beleza na soltura dos corpos e como se entregam ao movimento. O chacra pélvico vibra e reverbera pela coluna, energia kundalini subindo como foguete até o topo da cabeça. Nossa…. O que fazer com tanta potência? Eu vejo uns casais indo para o escurinho lá atrás. E por lá ficam. Fazendo sexo. Dá pra ver de longe, na penumbra. Quem tem carro é mais discreto, ou fica lá dentro ou sai para as redondezas.  Fim de festa. Fim de jogo? Quem ganhou? Perder é ficar sozinho e bêbado. Uma moça e um rapaz da cidade vizinha sentam ao meu lado, ouço a conversa e a gente “troca uma idéia”. Jamila está nervosa, dizendo ao rapaz que sua irmã acaba de traí-lo e não é porque ele já a traiu que ela pode fazer isso com ele. O machismo propõe uma rua de mão única?! Parece que sim. A irmã atacando a própria irmã. “Nunca confie em gente da Paraíba, ainda mais tu que não é daqui, viu?”, ela me disse. O rapaz fica calado, amuado, e a moça querendo que ele faça algo. Eles saem discutindo e entram no carro. Há um desespero em “agarrar, pegar” alguém. Como diz o guru, bebida e sexo nos dão uma ponta do nirvana, é uma “delícia”, mas é fugaz. Jennifer me pede 1 real. “Pra quê?”, pergunto. “Pra comprar um cigarro.” Eu vou lá e trago pra ela. Meus amigos se dispersam, eu fico só. De repente encontro com um outro conhecido, o Rafael. Ele sorri. Volto a dançar, forró, bem juntinho, simples, sem complicações coreográficas. A música termina. A moça vai embora. Fica um vazio. À distância, vejo um de meus amigos entrando no carro com uma mulher gigante de chapéu de cowboy. A festa vai terminando. Como é que vou voltar? A lua ainda está brilhando, algo vai aparecer. Um carro com dois homens bêbados estaciona. Eles gritam algo. Eu pergunto se vão pra Cajazeiras. Dizem que sim. Ai ai ai. Será que vou? Será que ele dá conta de dirigir? Mas senti que dava pra entrar. O carro levantou poeira, parou no asfalto, ele olhou para os dois lados e acelerou com força, rangendo os pneus, Ayrton Senna da madrugada paraibana. E rangeu os pneus várias vezes durante o trajeto. “Me dá 10 reais aí pra ajudá na gasolina”, disse o motorista. Eu pensei: “Ok, justo. E se fosse um táxi, seriam 30 reais”. Dei-lhe o dinheiro. Ele ficou surpreso, meio sem graça, achou que eu ia regatear. “Ô amigo, tu sabe como é…é pra ajudá na gasolina, tô quebrado…”. Eu agradeci e desejei-lhe boa  noite, bom descanso. E fui pra casa descansar às 5 da manhã do dia 7 de setembro. Liberdade!?

Mandacuru Foto ©Tiago Gambogi

De lugar nenhum para nenhum lugar

as crianças na noite não têm nome
são eu e você e todos nós

perambulam

um menino de 15 anos me pede 1 real
pra quê? Comprar um cigarro

um menino de 7 anos cata latinhas no chão
ele tem uma camiseta de futebol onde se lê:
“England”

uma menina (que diz ter 21 anos) pede: “Me paga uma cerveja?”
teve o primeiro filho aos 13 anos

as crianças na noite não têm nome

custam barato pra quem quer comprá-las
bares, praças, festas, cabarés

adultos se divertem

rituais de pré-acasalamento sofisticados

e quando os filhos nascem?

não são bem-vindos
abandonados

o outro menino tinha 15 anos
corpo forte de trabalho braçal
feições duras, cara de mau, o sorriso infantil se foi

qual o seu nome?

as crianças na noite não têm nome

“eu tive um filho com homem casado, mas é minha mãe é quem cuida”
“meu filho de 10 anos é que cuida de mim”, a outra mãe diz

Gabriel, de 12 anos, não perambula pelas ruas
ele me mostrou seu jogo de computador
viagem de caminhão pela Transamazônica
em determinado ponto uma placa diz:
“Transamazônica: sinônimo de desenvolvimento – 30/08/1972”

Transamazônica sinônimo de desenvolvimento – Imagem do jogo American Long Haul

Viagem de ônibus de João Pessoa a Cajazeiras – Foto ©Tiago Gambogi

Rodoviária no interior da Paraíba – Foto ©Tiago Gambogi

Divisa entre os Estados da Paraíba e Ceará – Foto© Tiago Gambogi

- FIM do post Cajazeiras – Parte 2 -

Tiago Gambogi em performance na Caatinga – 3 – Foto ©Tiago Gambogi

Cidade 2: Cajazeiras, Paraíba, Brasil,  Km 498 (aprox..) , Rodovia Transamazônica, BR-230
PARTE 1 – Datas: 2/9/2012 – 5/9/2012 – Duração: 3 dias (por enquanto)

Quarta-feira, 5 de Setembro 2012

Estar em um lugar que você não conhece faz com que o corpo se torne mais curioso. Ele tenta absorver, processar e entender o que se passa. O processo de documentação, em fotos, vídeo ou áudio, traz o foco para o que é documentado, para o exterior. A minha função é quase jornalística, mas com focos e interesses específicos do Projeto Trans-Amazônia. Quem são as pessoas que vivem ao longo da BR-230? Qual sua relação com os recursos naturais à sua volta? O que acontece nestas cidades, povoados? Quais as principais atividades: agricultura, pecuária, indústria, prestação de serviços? A curiosidade do jornalista/artista/clown é infinda, e isso é positivo.

O foco está no que acontece no exterior, mas o que acontece com o meu interior? O que acontece com o artista que percorre este processo?

Com esta pergunta em mente, decido por uma performance, um experimento em uma locação. Em Cabedelo, a última cidade em que estive, optei pela locação da praia, afinal este é o grande diferencial de lá, o mar. A performance aconteceu durante a noite, sob a lua cheia (ver post sobre Cabedelo). Na estadia em Cajazeiras (PB), opto pelo oposto – o sertão e sua vegetação de caatinga, nos arredores da pequena cidade de São José de Piranhas, próximo à Serra do Horebe. A performance aconteceu ao meio-dia,  34 °C, “calor de lascar!”, como dizem.

Luiz Carlos Garrocho (diretor de teatro / performance) me perguntou: “ que encontro é esse que ocorre quando você performa sozinho?” Aí seguem algumas observações:

- inicialmente minha concentração foca nos elementos externos da paisagem: solo seco cheio de pedras, uma árvore, serra, o barulho do caminhar, o calor, o vento,  carros, um ônibus, alguém grita. O primeiro momento é “estar” neste ambiente, evitar fazer coisas, ou como diz todo brasileiro, “ficar à vontade”.

- as ações surgem a partir da interação com este ambiente, um encontro com o environment.

- escolho e me transformo em mais um elemento nesta paisagem. Sou como todos eles, mas também sou outro.

- o movimento parte de algo simples. Na praia em Cabedelo o vento sopra e leva o corpo a pequenos gestos, balanços. Vejo a árvore. Braços se transformam em galhos, pernas em raízes. Vou me mexendo, procurando esta qualidade seca, árida, árvore. Isto me faz lembrar o Butoh e sua imagens e subtextos da natureza e também o Action Theater© de Ruth Zaporah. Qualidades corporais emergindo a partir de elementos da natureza. No caso desta performance, os elementos estão ali na minha frente, ao lado, ao redor. Imerso neles, respondo corporalmente.

- foco no tempo presente. Atenção triplicada.

- cansaço, sede, calor do performer informam a ação da performance.

- instintivamente não vou ao chão. Ele é árido, seco, cheio de pedras. Aos poucos, o movimento se desenvolve em algo mais agressivo e contorcido, até chegar à qualidade de salto. Voar. Libertar-se. A caatinga traz tudo para a terra. O sol queima, esturrica a vegetação. O corpo tem pulsão e procura a sobrevivência. Quer ir para o céu azul do sertão. Ícaro. Fênix. Opa, calma lá! Refresca um pouco aí, cara! Cadê a água? Tá no açude. Cadê o açude? Evaporou. Cadê o vapor? Foi pro céu. Cadê o céu?

Termino a ação. São vários vídeos de 2 min e fotos também. A câmera estática em um tripé. Eu mesmo a preparo e realizo a ação. De vez em quando assisto o que fiz e tento aprofundar uma idéia. Desmonto tudo e caminho 2km de volta a São José de Piranhas, onde pego um táxi lotação (7 reais) de volta a Cajazeiras.

Tiago Gambogi em performance na Caatinga – 1 – Foto ©Tiago Gambogi

Vista do ponto mais alto – Nas alturas – Foto ©Tiago Gambogi

Tiago Gambogi em performance na Caatinga – 2 – Foto ©Tiago Gambogi

Encontro com o Sr. Luiz Brito antes de subir a Serra do Horebe em São José de Piranhas (PB) – Foto ©Tiago Gambogi

Dona Nena voltando para seu sítio com alimentos – Foto ©Tiago Gambogi

A noite foi animadíssima. Final do Campeonato de Futebol da 2ª Divisão da Paraíba: Atlético (time de Cajazeiras) e Cruzeiro (time de  Itaporanga). Os jogadores do Atlético estão hospedados no mesmo hotel em que estou. Perguntei se poderia fotografar e filmar o jogo lá do campo e ofereci o material para eles. Aprovaram, e lá fui eu, repórter futebolístico.

É impressionante a força do coletivo, do grupo, todos com o mesmo objetivo – ganhar o campeonato naquela noite. E a torcida lá, também, com o mesmo objetivo. Compartilhamento. E juntos eles vão em frente. Preparação no vestiário, aquecimento, bater bola, dar grito de guerra e abraços de boa sorte. E lá vão eles. Tudo é movimento, tudo é dança. Guerreiros contratados de vários estados do Brasil (Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, etc) moraram em Cajazeiras durante 3 meses para jogar o campeonato. E ganharam – 1 x 0! Jogo muito disputado! Eu, atrás do gol, procurando com a câmera a ação do jogo, a bola, até que,  a partir de um escanteio, o atacante faz o gol da vitória. A massa vibra, grita, toca bateria de escola de samba misturada com toques militares. “É campeão. É campeão!”. Belíssimo momento, epifania de arrepiar. Os xingamentos do 1° tempo se transformam em celebração. Bravo! Parabéns ao Atlético de Cajazeiras e toda sua equipe!

Atlético de Cajazeiras antes de sua vitória de 1×0 na final do Campeonato da 2a divisão da Paraíba – Foto ©Tiago Gambogi

Atlético campeão! Foto ©Tiago Gambogi

Cajazeiras, terça-feira, 4 setembro  2012

Encontros / conversas / entrevistas:

- Daniel – dono do hotel onde estou e membro do MCCE (Movimento Contra Corrupção Eleitoral).  De São Paulo, mora em Cajazeiras. Trabalha para o MCCE com atuação em Baixio (CE), a 40 minutos daqui. Alto, comunicativo, determinado e com forte espírito de mudança.

Reginaldo – trabalha com Daniel no MCCE.

- Ana Cláudia – estuda Enfermagem, esposa de Daniel. “Baixio não tem indústria. A Prefeitura gera muitos empregos e é por isso que a população aqui é tão ligada à eleição. Tem o fator sobrevivência. Tem gente que é fanático pelo candidato e até aposta sua casa, seu carro”, diz Ana Cláudia.
- Gabriel – 12 anos, filho de Daniel.

- Tita – Jogador de futebol do Atlético, casado, simpático, cearense, com uma filha de 1 ano, “amor da minha vida”, ele disse com brilho nos olhos . “…se ganharmos amanhã vai ter festa e passeata com carro de bombeiro pela cidade…!” E disseram que também devem receber “o bicho”, o bônus da vitória.

-Júnior – de Petrolina (Pernambuco), está abrindo um mercado de verduras e legumes na cidade. Seu pai e seu sogro também estão no ramo. Tem negócios até em Bacabal, no Maranhão. Pretendem levar verduras para lá e trazer madeiras no caminhão na volta. Bacabal é muito conhecida por suas madeireiras e o desmatamento por lá. A namorada de Júnior estuda psicologia em Cajazeiras.

-J.C.,  47 anos, de Teixeira, na Paraíba, tem 18 filhos e 12 mulheres. Vive viajando, é aposentado, veio ver a filha que teve um bebê. “Estudei Arte Cultura, em Brasília, faço esculturas”,  disse. Viajou o Brasil, Argentina, Paraguai, rodou mundo. “Já fiz de tudo nessa vida…o pior emprego foi limpar fossas manualmente.” Teve problema de saúde pois trabalhou em plantações “jogando agrotóxicos…corroeu e secou meus órgãos”. Hoje ele faz parte de uma pesquisa científica e tem dentro de seu estômago um aparelho que monitora sua saúde. Tem ascendência indígena – “caboclo brabo da Paraíba”, a tribo era chamada assim.

- Dona Nena, carregando lata na cabeça de volta para seu sítio próximo à bela vista do ponto alto na serra, chama-se “Nas Alturas”, próximo a São José de Piranhas.

- Seu Damião, limpando terreno com roçadeira “Nas Alturas”.

- Ricardo, criança brincando em um terreno próximo à sua casa.

- Wandinho, do taxi lotação, entusiasmado com as belezas naturais de sua terra.

Daniel, na sede do Movimento Contra Corrupção Eleitoral, em Baixio Ceará – Foto ©Tiago Gambogi

Daniel é generoso e me convida para ir a Baixio conhecer a cidade e ver o trabalho que ele faz ali com o MCCE (Movimento Contra Corrupção Eleitoral). “Existe na cidade e em todo o Nordeste uma grande tradição de compra de votos”, diz. A lei da ficha limpa vigora há um ano e Daniel diz: “Quero fazer a diferença!”.  A cidade tem dois candidatos, ambos já foram prefeitos anteriormente e constam irregularidades durante suas gestões. Têm grande rivalidade. A cidade de Baixio “…não tem viatura de polícia nem ambulância e teve arrecadação de 3 milhões de reais ano passado. O rádio da polícia não funciona quando o vento sopra para um determinado lado”, comenta. Ele me mostra a sede de seu trabalho, e depois vamos ao Fórum onde conheço o promotor da cidade. Saindo de lá, Daniel vê de longe uma caminhonete cheia de crianças. Entramos no carro rapidamente e Daniel me pede para fotografar e filmar a cena. As crianças estão sendo transportadas para a escola em uma caminhonete aberta, como “um pau-de-arara”, sem segurança alguma, veículo disponibilizado pela prefeitura. Assim que perceberam que estávamos documentando, dois homens chegam de moto e falam de maneira incisiva, agressiva que devíamos parar de fotografar. São funcionários do atual prefeito em campanha para sua reeleição. “Vai arrumar serviço e deixa o homem trabalhar em paz”, disseram.  Pararam a caminhonete e pediram para as crianças descerem. Em poucos minutos trouxeram duas kombis escolares e dois carros particulares para substituir a caminhonete. A ação de Daniel obteve sucesso e mudança nesta situação.

Caminhonete levando crianças à escola em Baixio (CE) -Foto ©Tiago Gambogi

Caminhonete levando crianças à escola e chegada de funcionários da prefeitura em suas motos, em Baixio (CE) – Foto ©Tiago Gambogi

Qual o movimento que cativa seus olhos neste ambiente? Motos, motos e motos. Como lobos, um grupo de 6 cachorros ronda às 7 horas da noite procurando comida. Andam em fila, há uma organização coreográfica no movimento deles. É bonito, instinto, vital, atrai os olhos. Rei Roberto Carlos glorioso na parede da lanchonete. Jovem de colete jeans e eterno na foto. Viva a Jovem Guarda! Um senhor caminha com chapéu, bengala, calça social, bem arrumado. No alto-falante Luiz Gonzaga. Pra todo lado, nos arredores, a caatinga. Cajazeiras, o nome provem do sítio em que a cidade se iniciou, onde havia muitas árvores de cajá. Setor de serviços desenvolvido, lojas sofisticadas. Pessoas bem vestidas. Olham para o meu par de tênis (com fita preta envolta) de forma curiosa. Asa sul, seu Alberto do mototáxi disse que é bairro perigoso, “lá tem muita gente que mexe com a pedra (crack)”. Na praça em frente à Igreja tem uma pracinha com internet de graça, é só sentar e conectar, WiFiZone. No alto de uma serra, a grande pedra com o Cristo Redentor lá em cima. J.C. disse que já fez muito Cristo pra “muitas cidades”. Na lanchonete de sucos a  moça disse que tem um rapaz que sempre pede 10 centavos. Se você der uma, ele não aceita, só aceita 10 centavos. Precisão. Legal. Dê (ou não dê) o que a pessoa lhe pediu, nem a menos, nem a mais. Qual o valor que você se dá? Você já comprou uma roupa  apertada ou grande demais porque estava na promoção?

Sigo o movimento…onde está o movimento? O senhor Luiz Brito vai devagarinho no jumento na contramão da estrada. Pausa. Ficar parado no sol de meio- dia.  O movimento do som é contínuo, polifonia, forró, campanha política, buzinas. Pedir informação na rua…todo mundo responde, com educação, mas às vezes as direções são confusas, falta precisão, pode ser por ali, ou pode ser por aqui…o mapa é impreciso. Esta não é a natureza dos mapas. Mas que problema tem isso? Uma nova concepção? Como será um mapa com um território “em aberto”?

BR-230 em Cajazeiras (PB) – Foto ©Tiago Gambogi

Criança espera na beira da BR-230 e brinca com uma vareta – Foto ©Tiago Gambogi

Cartografia: emocional, corporal, histórica, ambiental, social, politica, visual, auditiva

Acordei às 3 da manha, a lombar doendo (colchão estava  bem mole).Depois às 7 da manhã com o carro de som da campanha política local.

Sr. Damião limpa terreno com roçadeira – Foto ©Tiago Gambogi


Perguntas:

O que a amplitude da paisagem traz para o corpo?

Como uma cidade lida com o fato de não ter um rio?

Quantos tijolinhos compõem este mosaico?

Qual a idade de Roberto Carlos nesta foto?

Você é casado?

Você é casada?

Quando sua tribo foi dizimada?

De onde você vem?

Você é gaúcho?

Qual a emoção na situação de confronto com o pessoal da caminhonete pau-de-arara?

Quanto tempo se gasta para ir a Minas Gerais?
Você me dá uma receita de pão-de-queijo?

Em que posição você joga no time de futebol?

O que você sente quando você vê uma pessoa atravessar a rua na frente do carro?

O que você sente quando alguém te pede uma esmola?

O que você quer?

O que você quer e não consegue? O que isto causa a você?

O que substitui o drama em um teatro que não tem conflito? A repetição de uma ação?

Quando você fica “de saco cheio”?

Quando você fica “de saco vazio” então?

Qual o som dos carros com motor desligado em um sinal fechado?

Quantas buzinas de moto você ouviu hoje?

Você acha que o Nordeste é só sertão e caatinga?

Qual a sua imagem do Nordeste brasileiro?

Você come bode?

Você come carneiro?

Você não come estas carnes, por quê?
De que maneira a propaganda política se assemelha à propaganda nazista? E à propaganda de um refrigerante?

Quando você é corrupto?

Quando você falha?

Quando isto é engraçado?

Quando isto é trágico?

Quando isto é tragicômico?
A rodoviária é nesta rua?
Porque você esqueceu sua carteira?

Porque você quer fazer um curso universitário?

Porque você não quer fazer um curso universitário?
Podemos usar os fios de eletricidade como varal?

Qual a diferença entre um rio e uma Revolução?

Qual a diferença entre uma Revolução e uma seca braba?

Qual a relação entre a Revolução de Canudos e os canudinhos de plástico da marca São Braz®?

Daniel carrega sua esposa Ana Cláudia na serra do Cristo Redentor com vista de Cajazeiras, PB ao fundo – Foto ©Tiago Gambogi

Ricardo brinca no terreno ao lado de sua casa próxima à São José de Piranhas (PB) – Foto ©Tiago Gambogi


Cajazeiras, segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cheguei aqui ontem à noite. Hoje foi um dia de organização corporal (fazer tai-chi, yoga); digital (baixar fotos, escrever textos, colocar artigo no blog); dos papéis (ir ao correio), etc. Isso é bom, concluir o processo que se passou em Cabedelo.

Cajazeiras é sertão quente. Bem organizada. Pessoas educadas, bem vestidas, com uma simplicidade gostosa e positiva. Gostei. Tem comércio, restaurantes, bares, etc. Não tem muito vento, pelo menos hoje. Lembrou-me a cidade de minha mãe em Minas, Patrocínio. Lá, cerrado, aqui, caatinga. Ambos fortes. Tudo plano. Pleno? Espero que sim. Dois cavalos passam pela rua. Depois uma moto. Outra moto com duas mulheres. Amazonas da era moderna. Motos são cavalos velozes com rodas.  As bicicletas…a mesma coisa, só que menos velozes. “Você é gaúcho?”,  um dos jogadores do time de futebol hospedados aqui no hotel me perguntou. “Sou mineiro!”.  Quando dei a mesma resposta para uma moça na rua, ela disse: “Me dá uma receita de pão de queijo!?”.  Era aniversário dela e eu disse que levaria a receita amanhã como presente. Perdi 3 kg hoje. Na mala. Enviei papéis, livros, material acumulado em Cabedelo para Belo Horizonte via correio. Ficar mais leve pra voar mais fácil. Hoje é segunda-feira, e um dos poucos bares abertos à noite é o bar do encontro. A cidade tem quatro faculdades que  atraem muitos jovens da região e do país. “Tem muita mulher bonita aqui!”, disse Cícero, o dono do bar. Ele quer voltar a morar em São Paulo, já organizou tudo, vai em breve para lá com a família abrir um estabelecimento com comidas do Nordeste. Na quarta-feira ele disse que tem música ao vivo no Teatro. Mas na quarta-feira vai haver a final do campeonato paraibano da 2ª divisão. Eu vou! 20 jogadores estão aqui no hotel, receptivo e bem cuidado pelo Daniel e sua família. Conheci o Seu Alberto, gentil, que trabalha com mototáxi. Com seus 50 e poucos anos, de Souza (PB) ,e mora em Cajazeiras há mais de 20 anos. “Todo lugar tem um sotaque e uma maneira diferente….eu aprendi o sotaque daqui. O senhor fala diferente mas eu entendo. Aqui em Cajazeiras todo mundo se conhece. É uma cidade tranquila, mas no sertão…o sertanejo sofre. Esse ano não choveu. O gado morre. A plantação morre. Até mesmo a festa da cidade teve que ser adiada.” Quando era pequeno trabalhava para sustentar a família e os irmãos. O irmão, dentista, agora mora em São Paulo, tem gratidão e ajudou seu Alberto a comprar sua casa. Convidou Seu Alberto para ir visitá-lo em Sampa, mas seu Alberto prefere a tranquilidade de Cajazeiras. Na telefônica, a moça fica brava e xinga seu companheiro de trabalho. Firme e incisiva. “Eu preciso deste trabalho pra me manter na Universidade. Não vem me atrapalhar não!” Vixe! Na outra esquina uma criança grita com a outra. O pessoal aqui tem sangue quente! Mas é bom usar este sangue. Vitalidade correndo. 34 graus hoje. No alto-falante a música diz que: “…a fila anda…”. Eu penso…e eu com isso! Não sou protocolo do INPS! Cada fila tem seu ritmo! E quem disse que relacionamento a dois entra em fila? Às vezes sim…mas que metáfora escolheram, hum? Aqui as pessoas são firmes, fortes e também doces. Cadeira de balanço na porta de casa. Olhando. Flanando. As lojas estão limpas. As roupas também. No açude grande da cidade as pessoas caminham, fazem jogging. Lá longe vem um homem em uma pequena canoa. Ele para. Tira sua vara de pescar. E fica quietinho. O sol, mais uma vez, lindo, com careca dourada, se põe no belo céu da querida Paraíba. Boa noite.

Pôr-do-sol no Açude Grande, Cajazeiras (PB) – Foto ©Tiago Gambogi

Pôr-do-sol próximo ao Açude Grande, Cajazeiras (PB) – Foto ©Tiago Gambogi

- FIM do artigo sobre Cajazeiras (Parte 1) -

Tiago Gambogi em performance na praia Formosa – Cabedelo – Paraíba – Brasil
por Lilia Tandaya

(Este relato começa de trás pra frente…)

João Pessoa, Domingo, 2 de setembro 2012

O ônibus parte da rodoviária de João Pessoa em direção a Cajazeiras. 8 horas de viagem atravessando a Paraíba: Santa Rita, Cruz do Espírito Santo, Sobrado, Caldas Brandão, Gurinhém, Mogeiro, Ingá, Riachão do Bacamarte, Massaranduba, Campina Grande, Soledade, Patos, Pombal, Souza até chegar na última cidade do Estado, Cajazeiras.

“Depois de 2 dias de convivência, a gente cria amizade pela pessoa e até sente saudade quando a pessoa vai embora.”, disse Dona Ana Júlia, dona da pousada. Conversar, conviver, compartilhar…todas palavras têm o prefixo “com”. Esta aí a chave para estabelecer um encontro – estar inteiramente “com” a pessoa.  “Você não fica triste ou chateado não, Tiago? Está sempre alegre!”. “É um elogio, obrigado. Está tudo tão bom e perfeito aqui, porque eu haveria de ficar chateado?”, disse eu.

Em Cabedelo inicio o Projeto Trans-Amazônia. Pequena cidade a 20 minutos de João Pessoa, “ponta de areia, ponto final…” diria o Milton Nascimento. A Rodovia Transamazônica surge aqui, no seu km zero. Do mar vem a estrada. Ou a estrada deságua no mar? Qual dos dois? Será uma relação de mão dupla? De quem é a preferência  neste trânsito? O homem ou o mar? Será que existe o Ministério da Justiça das Águas do Oceano do Atlântico Sul?

No dia 30 de agosto de 2012 eu saí pra rua em busca de informações. Ninguém sabia que a Rodovia completava 40 anos naquele dia. O km zero é a pracinha principal da cidade e ali uma solitária árvore produz uma sombra gostosa. Dia quente, hora do almoço, caminhoneiros parados embaixo da árvore esperando, esperando…o quê? Godot? Será que o escritor Samuel Beckett teria vindo a Cabedelo? Nem um nem outro. Os caminhoneiros esperam para fazer o descarregamento na Petrobrás, que está ali ao lado. Estão falando castelhano. Uma moça com um filho nos braços chega até eles para pedir uma ajuda.

No aniversário da Transamazônica não tem festa nem manifestação contra a Rodovia. A vida trans-corre normalmente, um dia comum. Afinal a Rodovia é a avenida principal da cidade. Seu João disse-me que se lembra do Presidente Médici aqui em 1972, mas que na verdade a estrada já existia. “Só foi melhorando. Ela era de terra, depois cascalho, depois asfalto, depois com duas pistas”. Celebrar o progresso ou chorar a destruição e morte que a Rodovia trouxe parece que não importa. A cidade continua seu movimento indiferente à história da BR-230.

Rodovia Transamazônica em Cabedelo – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Com Danilo (moto taxi) na BR-230 para João Pessoa – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Em Cabedelo, durante 4 dias e meio, realizei as seguintes atividades:

Filmagens:

- câmera parada, plano aberto, com o objetivo de criação de projeções de cenários em vídeo para o espetáculo de dança/teatro físico. Diversas locações na cidade: paisagens, cenas cotidianas, bares, crianças na praia, km zero. Qual o tempo do cotidiano da cidade? O que está acontecendo aqui? Qual o tempo na praia? Como o corpo se comporta na praia?

- pôr-do-sol na Praia do Jacaré onde Jurandir toca o Bolero de Ravel às 5 da tarde. Ele era dono de um bar na beira do rio e começou este ritual a mais de 10 anos. Hoje ele é o saxofonista/artista, atração turística do local. Os bares foram comprados por pessoas “de fora” e modernizados, disse-me o garçom.

Eu, homem de azul na Fortaleza de Santa Catarina – Copyright 2012 Tiago Gambogi

- Fortaleza de Santa Catarina. Espaço enorme. Correr. Habitar o espaço. Procurar uma saída. Procurar direções. Eu, vestido de avental e boné azul procuro uma saída, um destino. Para onde eu vou? Dançar no parapeito/ribanceira. Esperar. Sol quente. Tem uma promessa de uma pessoa/personagem/entidade aí.

-Filmagem da viagem de moto táxi de Cabedelo à Universidade Federal da Paraíba para fazer cópias dos livros sobre a história de Cabedelo.

(etc…)

Encontros/conversas/entrevistas realizadas:

- Dona Têca do Coco, 71 anos, Mestra do Coco de Roda e Ciranda do Mestre Benedito- Seu João, marido de Dona Têca, motorista de caminhão aposentado- Dona Domerina, senhora de 93 anos, mãe de Dona Têca
- Severino, senhor  violonista de coco, ciranda e serestas; deficiente visual; mora com Dona Têca
- Dona Ana Júlia – dona de pousada, nascida em Belém do Pará
- Lilia – fotógrafa, artista visual e professora
- Grego – artista, videomaker
- Beto –professor universitário
- Guto – dono de oficina de bicicletas
- Marieta Resende – funcionária pública da secretaria de educação
- Geraldo – ex-segurança de banco
- Pedoca – pescador aposentado
- Júnior e Josian da copiadorar na  UFPB.
- Carlos André (e seu filho de 5 anos Vinícius) e Evandro – pilotos de lancha para a cidade de Lucena, Forte Velho e outras
- Oswaldo Júnior – aposentado, aprecia o fato do ex-presidente Fernando Collor de Mello, agora senador, fazer um decreto contra o desmatamento na Amazônia.
- Camila, a moça com o celular rosa no trem de João Pessoa para Cabedelo.
- Paulo, sua  esposa Raquel, seu irmão, e Aninha, na lanchonete Paulo Lanches.
- Muca, no Bar do Muca, servindo “Arrumadinho” pro almoço.
- Jorge, motorista de caminhão da Petrobrás, bigode grande e óculos escuros.
- Júnior, dono de restaurante.
- Daniela, seu marido e a filha, moram em Porto Velho e estão de férias em Cabedelo.
- Garçom em restaurante self-service em João Pessoa: “Não existe lugar bom ou ruim, o que importa é como você entra e sai do lugar…e os amigos que faz ali”.}

Dona Domerina – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Dona Têca do Coco de Roda – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Improvisações:

Caminhante durante o nascer do sol – Copyright 2012 Tiago Gambogi

- Improvisação durante o nascer e pôr-do-sol na Praia Formosa. Qual a diferença?
- Improvisação no km zero da Rodovia Transamazônica. Proposta: usando movimento cotidiano, habitar o espaço e aos poucos expandir o movimento em direção à abstração.

Tiago Gambogi em performance na praia Formosa – Cabedelo – Paraíba – Brasil – por Lilia Tandaya

Parcerias artísticas: com a fotógrafa e artista visual Lilia Tandaya (www.profotos.com.br) na performance Praia Formosa em Cabedelo, sexta-feira dia 31 de Agosto 2012.

Tiago Gambogi em performance na praia Formosa – Cabedelo – Paraíba – Brasil – por Lilia Tandaya

Sentir o vento no corpo e balançar como palmeira
O movimento se inicia a partir daí
Fazer parte e habitar este grande espaço da praia
Lua cheia prateada brilha no mar
Corpo vestido de negro corta o espaço com os braços e pernas
Salta e vai de encontro com a areia
Cair sujar-se de areia
sargaço
Corpo lama
Corpo como toalha molhada

O homem de negro que entra no mar
Vira espírito
Trans-formar-se em mar,
Morte no mar vira vida
A fotografia vira pintura e o homem se integra ao ambiente ali
Sozinho liberto inteiro
Ofegante salta vira bolinha
Quando mais ele dança mais o espírito se enche
Viver de novo renascer fênix (tem um incenso com este nome!)
E… dormir em paz…
O que fica desta performance? O corpo se movimenta a partir das informações do espaço presente. Corpo imbuído de natureza. Corpo elemento.

Fotos e sons gravados:

- Mercado na rua no dia de sábado
- Balsa para Lucena
- Praia Formosa
- as pequenas ruas, as pessoas em suas cadeiras de balanço na porta de casa

Existe uma simplicidade e uma ética na população aqui

Dona Têca fala do problema das drogas, do crack
Ontem mesmo ela viu um jovem que conhecia sendo perseguido pela polícia
O policial apontou pra cabeça do menino, depois mudou de ideia, atirou pra cima
Um barulho horrível, todos na rua  assustados

Mas deixa pra lá. As coisas boas é que nos salvam.
Dona Têca é linda, maravilhosa, fala e canta com o coração

O abraço das feirantes – Copyright 2012 Tiago Gambogi

seus olhos brilham lindos e puros quando ela canta o coco de roda, a ciranda e a seresta
71 anos de idade
Enchem meus olhos d’água

O povo aqui às vezes parece tímido, retraído
Depois fala com vontade e cheio de alegria
Precaução? Cuidado? A vida dura traz tristeza? Medo?

Crianças no Mercado de sábado – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Guto, da oficina de bicicleta me diz que o coronelismo aqui ainda é muito forte aqui
Opressor. “O melhor não é ser vereador, é ser amigo do vereador”, ressalta

Carlos André e Vinícius na lancha para Lucena – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Nos olhos de algumas pessoas eu vejo uma dor
Aproximo com a câmera. Vejo desconfiança nos olhos
Peço pra fotografar. Aí a pessoa  sorri e diz: “Claro!”
Tira uma foto aqui, outra ali
A câmera não é mais espingarda de coronel
A câmera vira um espelho, uma forma de registro bom
Eu “tiro” a foto. Será que “tira” o espírito mesmo? como os índios pensavam?
mas devolvo para o fotografado, aha! O espírito sempre, às vezes em cd!
para o Carlos André da lancha eu gravei 2 cds
Ele e o filho dele na lancha onde ele trabalha
“Quanto custa?”, perguntou
‘Não custa nada, presente pra você”, eu digo
Ele agradece.

Quarta-feira, 29/8/2012, Cabedelo, Paraíba

Aeroporto Luz – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Almoço no km zero. Suco de caju em mesa longa comendo lado a lado com pessoas que não conheço (ou “amigos em potencial”, como  diz o pai de uma amiga minha).Todos param para o almoço.  Mais pessoas chegam. Camarão, mariscada, peixe e carne de sol.  Rapaz do outro lado da mesa optou pela feijoada e nem uma verdura. Dona Ana Júlia gentilmente me ofereceu uma carona. Eu escrevo no caderno em toda a extensão da linha pra aproveitar cada pedacinho da página; meu avô fazia assim. Casas aqui custavam 50 mil, agora custam 1 milhão? Supervalorização imobiliária. Quando a bolha vai estourar? Nada mal, não é? Quem  compra? Político, fazendeiro, sorveteiro, feirante ou pescador? O almoço custava 7 reais e a senhora não tinha o dinheiro. Saiu com fome. O político oferece 50 reais pelo seu voto. Você vai aceitar? Qual o seu preço? Tem uma pedra grande no mar que atrapalha a chegada dos navios ao porto de Cabedelo e que está para ser detonada a mais de…20 anos! ? Continua ali…O novo mercado demorou 8 anos pra ficar pronto….logo agora antes das eleições. Timing é a alma do negócio. A palavra quando é a mais importante. Cabedelo tem a terceira maior arrecadação do Estado da Paraíba, é uma pequena cidade e …para onde vai todo o dinheiro? Corrupção, desvio de verbas, diz a maioria das pessoas com quem converso.  Tem também a lanchonete do Paulo – chama-se Paulo lanches – galinha guisada com macaxeira ao som dos jogos do campeonato brasileiro ou as novelas da Rede Globo. É estranho ouvir e ver novelas ali no contexto da cidade. Todo mundo branquinho falando com sotaque carioca sobre assuntos, intrigas e piadas banais…para fazer o povo “esquecer o dia duro” que tiveram? Carros, roupas, mansões na Urca…? Lindo, mas afinal, qual o papel dos meios de comunicação? O que querem comunicar? O Faustão  falava sobre Caravaggio enquanto 20 bailarinas dançavam atrás dele com figurino apertado no último domingo. Qual o objetivo? Aqui em Cabedelo você tem que ficar “esperto”com os moto taxis e bicicletas. Não é a Índia não, mas o trânsito às vezes é bem …cheio…de direções múltiplas, vamos dizer assim. Andei de moto táxi. No início dá medo, depois…desprendimento e liberdade. Acho que vou deixar meu bigode crescer. Os homens aqui têm bigode. Os mais velhos tem um bigode mais cheio. Os mais novos tem um bigode mais fino. Ao lado da banca de revistas tem uma tv em uma gaiola que toca música clássica. Lindo! Tocam Beethoven, Variação XI Alegretto, Alfredo Pearl, Diabelli, Arte Nova Clássica. Na outra esquina tem propaganda eleitoral. Muita barulheira.

“E a luz se fez…”

Começar. Nascer, “dar a luz”, vir ao mundo como uma explosão Big Bang ou iniciar devagarinho, suave, o sol nascendo às 4:59 da manhã. Começar com carinho, cuidado. Ouvir o vento sentir a areia nos pés. Perceber com delicadeza e deixar o bom humor permear as relações. Na estrada tem muitos postes. Eles conduzem energia elétrica, telefonia e outras coisas. Onde havia árvores, agora existem postes. Queremos luz!  A câmera fotografa e brinca com a luz. Tudo é luz. Mas o que fazer com tanto sol então, cadê a energia solar? E esse vento que mexe os cabelos encaracolados da moça na praia, hum? Energia eólica é caro, dizem…solar? Mais ainda. As hidrelétricas são o futuro? Será? Como será o futuro?

Pra quê tomar suco natural se temos refrigerante em lata? Mais rápido, limpo, hum? A árvore aprofunda sua raiz e vai seguindo pra cima, crescendo, crescendo. O poste não. Este tem um tamanho só, não cresce. O José Simão diz que quem fica parado é poste, né?  “O que você quer ser quando crescer? um poste…ou uma árvore?”, perguntei à menina na rua do mercadinho no bairro monte castelo: “Eu quero ser uma árvore bem grande e viver até 100 anos”. A árvore balança, dança. O poste fica parado. Você quer dançar?

Assim iniciamos o Projeto Trans-Amazônia. Em busca da luz. Luz sustentável. Emoções sustentáveis. Corações compartilhados.

Dona Ana Júlia – Copyright 2012 Tiago Gambogi

Obrigado a todos em Cabedelo! À Dona Ana Júlia e Lilia em especial, por sua hospitalidade! Belíssimo! Até logo, até…

37 respostas em “Diário de criação 30/8 à 8/9

  1. Querido Tiago, que os bons ventos te guiem. Torço por você, vibro com sua coragem, com sua capacidade de ir ao seu encontro. Minhas melhores vibrações para o sucesso do projeto!!!

  2. Que aventura artística, que oportunidade! Pelo menos eu posso acompanhar – e participar um pouquinho… – vendo seu blog! Bom demais, valeu! Uma experiência tocante e um estudo que, certamente, trará grandes frutos futuros!

  3. Adorei!! Especialmente nossa parceria em movimento lunar… A postagem é riquisima em informações e emoções… Detalhes do dia a dia ganham uma poética de encantamento através da sua percepção sensível ao ambiente e cuidadosa com os personagens… Estarei acompanhando essa sua viagem Trans… Boa Luz e muita Inspiração ;) Bjinhos

  4. Viajar…dançar…se ser…se criar…sentir…compartilhando! Polvilhando sensibilidade… Adooooro, Gogam! Pra você, todo meu sentimento de continue fluindo essa energia boa…! Paty Grace

  5. hummm o que dizer??? um diário é algo muito pessoal… dificil entrar, Tiago. Vou ficar espreitando.. na beira da página.. na areia. Pode?
    Performance .. quem viu ? viu o que? viu como? sentiu como? transformar homem no mar???// prefiro homem com mar.. homem e mar;;; pensando.. Gosto da importãncia dada ao “com”.
    Boa viagem
    bj

    • Oi Mônica, tudo bem? Qualquer comentário é bem vindo, tudo vale, o silêncio ou uma dissertação. Mas é claro que gostaria de algumas palavras. Dá uma trabalheira (boa é claro!) danada pra organizar todas as atividades e documentá-las (e postar aqui também). Diário está difícil de entrar? Então será que a falha é minha? Pessoal demais? Tudo é pessoal, eu acredito, como posso me ausentar nas minhas palavras? Bem, espero que os textos e fotos estejam dando material que instigue o leitor e que não seja somente a “viagem” de quem escreve, neste caso, eu, Tiago. Quem viu a performance? A Lilia Tandaya fotógrafa e alguns passantes. E aí, isto importa? O registro escrito e fotográfico cria uma outra obra e daí o desejo de compartilhar o processo. Sim, com-partilhar. Que bom que você curtiu o “com”. Viajar é aceitar cada pessoa que encontro por completo. Então aceito todo comentário que vier. Alguma sugestão, idéia, proposta de abordagem considerando o que você já viu? Estou planejando uma saída com meu personagem Sérgio em Juazeiro do Norte. Acho que vou continuar com a proposta de improvisações com partituras físicas / performance em paisagens do local onde estou. Obrigado, beijo grande e aguardando seu retorno, LOVE, Tiago x

      • Caro Tiago, ficamos surpresos e felizes com sua passagem por Cabedelo. Pena queq não soubemos a tempo de fazer uma entrevista com vc. Esperamos que tenha levado boas recordações da nossa linda, mas, maltratada cidade.

        Gostariams de evidenciar sua passagem pr Cabedelo e queriamos sua autorização para usarmos alguns textos seus e fotos para ilustrar uma materia sobre sua passagem pela cidde.

        Grato,

        Wellington Costa
        http://www.soltandooverbo.com.br
        (83) 8888 2677

      • Oi Wellington, obrigado pelo contato! Sim, pode utilizar as imagens e textos. É só dar os créditos corretamente…tudo bem! É um prazer poder compartilhar. Quando tiver o link do artigo/matéria me envie. Obrigado e fiquemos em contato. Grande abraço, Tiago

  6. Tiago,
    Quanta coisa já apareceu, heim?

    E então, o que é o acontecimento?
    Não é um fato, algo empírico. Não é uma batida de carro, um acidente, uma pessoa que passa e te olha, não é algo que você tenha feito…

    E então, o que é o acontecimento?

    É algo que passa ao mesmo tempo pela linguagem e pelo mundo.
    Deleuze:

    “Em todo acontecimento, há de fato o momento presente da
    efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um
    estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é
    designado quando se diz: pronto, chegou a hora; e o futuro e o
    passado do acontecimento só são julgados em função desse
    presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas
    há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado
    em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das
    limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e préindividual,
    neutro, nem geral nem particular, eventum tantum…;
    ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel
    que o representa, sempre desdobrado em passado-futuro,
    formando o que convém chamar de contra-efetuação. Em um dos
    casos, é minha vida que me parece frágil demais para mim, que
    escapa num ponto tornado presente numa relação determinável
    comigo. No outro caso, sou eu que sou fraco demais para a vida,
    a vida é grande demais para mim, lançando por toda a parte suas
    singularidades, sem relação comigo nem com um momento
    determinável como presente, salvo com o instante impessoal que
    se desdobra em ainda-futuro e já-passado.”

    François |ourabichvili:

    “O conceito de acontecimento nasce de uma distinção de origem estóica: “não
    confundir o acontecimento com sua efetuação espaço-temporal num estado de
    coisas” (LS, 34). Dizer que “o punhal corta a carne” é exprimir uma transformação
    incorporal que difere em natureza da mistura de corpos correspondente (quando
    o punhal corta efetivamente, materialmente a carne) (MP, 109). A efetuação nos
    corpos (encarnação ou atualização do acontecimento) gera apenas a sucessão de
    dois estados de coisas, antes-depois, segundo o princípio de disjunção exclusiva,
    ao passo que a linguagem recolhe a diferença desses estados de coisas, o puro
    instante de sua disjunção (ver AION): ocorre-lhe realizar a síntese disjuntiva do
    acontecimento, e é essa diferença que faz sentido.
    Mas do fato de que o acontecimento encontre abrigo na linguagem não se
    deve concluir por sua natureza linguageira, como se ele não passasse do
    equivalente da mistura dos corpos num outro plano: a fronteira não passa entre a
    linguagem e o acontecimento de um lado e entre o mundo e seus estados de
    coisas do outro, mas entre duas interpretações da relação entre linguagem e
    mundo.”

    Então, Tiago, o que é o acontecimento?
    Penso que a resposta está no acionismo. Que encontro é esse que ocorre quando você performa sozinho?

    Abraços

    Luiz

  7. TIAGO
    conhecer-te no sertão da paraiba,na cidade de cajazeiras,foi uma honra!a cidade se alegra com sua visita,volte tantas vezes se assim o for,sua alegria,seu sorriso,o teu olhar a falar,kkk,seu encanto,sua luz,e seu trabalho maravilhoso,amei!quero que DEUS,te guie a cada passo,lhe dando tudo aquilo que desejas,sucesso sempre viu.a paz.

  8. Ei Tiago,
    Estou achando isso tudo maravilhoso, e perceber sua entrega nesta aventura é realmente muito prazeroso.Um bandeirante contemporaneo desbravando espaços na captura do afeto que possa existir dentro da dura realidade dessa gente brasileira, destas terras devastadas
    Na escuta
    Dudude

  9. Tiago,
    As imagens são muito bonitas, cheias de luz.
    Quero fazer algumas considerações sobre as performances. Que não as vejo, claro. E que possivelmente não encontram quem as possam ver, agora.´Os vídeos estarão disponíveis?

    Gostei dessa sua acolhida do ambiente. Logicamente, desconsidere se achar que as minhas pro-vocações estão fora de foco. Mas penso que deveríamos trilhar coisas como:

    - A performance que é uma necessidade desse corpo. Acho que deve ser um ato de entrega – de contato com forças. Por isso, eu concordo com você: o minimo movimento. O ato necessário. O bicho-homem na terra. Esta escuta, que você está operando, se entendi bem, me parece crucial para a pesquisa e para a criação.

    - Don Juan, o bruxo de Castãneda dizia que a Morte nos concede um tempo para mostrar nossa dança. Se for uma dança realmente interessante (para ela, a Morte, lógico), ela assiste. Se não…

    - O ato necessário. Mais nada do que isso.

    - Quanto às fotos das performances, penso que mesmo não tendo agora um parceiro, você deveria fazer de cada uma um ato de composição: estética. Tente colocar a câmera num lugar, ou peça alguma pessoa para fazer para você. Acho que é bem interessante ter as imagens como composições – como obras independentes. Queria ver seu rosto no chão, rente à terra, olhando essa vasta aridez, a câmera te pegando rente…

    Continuemos…

    Luiz

  10. Tigo está realmente intenso esta pesquisa, estou acompanhando e observando as mudanças que o afeto traz e ensina, mantenha sua atenção as vezes megulhe as vezes margeie, um olhar de dentro e outro de fora, o estrangeiro….
    Bjim Dudude

      • Ta certo Tiago, ñ pude ir ao encerramento curtir sua aula e nem ti dar um mega abraço, mas deixo aqui meu grande abraço e meus comprimentos pelo seu belo trabalho.Parábens e que volte mas vezes, Bj’s
        Brunna Valléria.

  11. Por onde passa deixa um rastro de saudades e boas memorias! Amamos ter te conhecido uma pessoa linda de alma pura e um profissional maravilhoso!! Já estamos com saudades e esperando seu retorno. Sucesso e boa sorte na sua longa estrada!!!
    Beijos e abraços
    Faeina Jorge ;)

    • Olá Faeina! Muito obrigado pelo comentário generoso e o acolhimento caloroso de vocês todos. Também amei ter conhecido vocês – as aulas, conversas e o tempo compartilhado. Que bom que a mágica do encontro aconteceu. Sim, voltarei! Continuemos! Beijo grande sempre!

  12. Oi Tiago, estou adorando as histórias…que maravilha essa troca de informações, aprendizado, experiências. E ao meu ver, as pessoas são de um carisma e acolhimento “raro” hoje em dia, isso é muito bacana. Continue sua jornada com a paz e as bençãos de Deus. Beijos.

    • Obrigado Glória! Todo mundo é aberto e receptivo…quando somos também…aí a mágica do encontro acontece e é infalível! A positividade sempre vence! Beijo grande e que bom que você está curtindo o blog. Tiago

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